WILKER LEÃO APAGOU O MURO DA UNB, FOI PRESO E SOLTO SEM FIANÇA, E O CV CONTINUA NA PAREDE
No vídeo em que alunas chamam o repintasso de arte a sigla do Comando Vermelho está escrita acima delas
Wilker Leão de Sá, candidato a deputado federal pelo Novo no Distrito Federal, número 3000, foi preso em flagrante no domingo (27), por volta das 17h, depois de pintar de branco o muro do Instituto de Artes da Universidade de Brasília. A Polícia Militar conduziu ele e o cinegrafista da campanha, Anderson Nigro, à Polícia Federal, sob a acusação de dano ao patrimônio da União. No depoimento, Wilker disse que comprou rolos e tinta, contratou cerca de 15 pessoas a R$ 150 cada e que o objetivo era apagar o que chamou de pichações ideológicas de esquerda numa instituição pública que, nas palavras dele, ele ajuda a pagar. A um homem que perguntou se havia autorização, respondeu, segundo o vídeo publicado pelo g1: “Bandeirinha LGBT aqui só vai sobrar a do seu celular.” A UnB classificou o ato como depredação e violência, disse que apoiadores agrediram estudantes e que o protocolo de segurança levou à prisão. A Polícia Federal escreveu que a pintura, embora ele a chamasse de revitalização, servia para apagar murais e produzir material de campanha.
Na segunda-feira (28), o juiz federal substituto da 10ª Vara Criminal da Seção Judiciária do Distrito Federal, Ricardo Augusto Soares Leite, mandou soltar os dois. O Ministério Público Federal tinha pedido liberdade provisória mediante fiança de R$ 20 mil, comprovante de endereço em 72 horas e aviso prévio se Wilker se afastasse da cidade por mais de 30 dias. O juiz não exigiu a fiança nem as cautelares. Na decisão, escreveu que não havia notícia de condenação anterior por crime doloso nem outra hipótese do artigo 313 do Código de Processo Penal que autorizasse a preventiva, e que não foram apontados fuga, interferência na prova ou ameaça a pessoas do caso. O advogado Wilmondes Viana confirmou a soltura ao UOL. O crime de dano, pela pena, não sustenta cadeia cautelar. Wilker saiu. O muro que ele cobriu virou, no dia seguinte, convocação.
O Centro Acadêmico de Artes Visuais marcou para esta terça (29), às 16h, na frente do Departamento de Artes Visuais, o SG1, o que chamou de repintasso. No vídeo gravado pelas próprias alunas e republicado pelo Metrópoles, duas estudantes estão de pé contra um pilar claro. Uma diz que não vão se intimidar com “os criminosos de extrema direita” que “pintaram as nossas paredes” e convoca os estudantes a refazer a pintura. O texto na tela anuncia “repintasso”, “Departamento de Artes Visuais SG1”, “29/09”, “amanhã”. A universidade e a legenda do vídeo tratam o que estava no muro como arte de aluno e o branco de Wilker como ataque. No mesmo quadro, acima da cabeça das duas, a parede ainda traz as letras CV, escritas à mão. CV é a sigla com que o Comando Vermelho marca muro, poste e território. Não é assinatura de ateliê. Não é estudo de cor. É o nome curto de uma facção que o governo americano classificou como organização terrorista e que, no Brasil, responde por homicídio, tráfico e controle de comunidade. Chamar de arte a parede em que essa sigla permanece, e chamar de crime o branco que foi passado por cima, inverte o verbo.
Wilker não é um desconhecido no campus. O Estadão registrou que ele foi expulso da UnB em 2025, depois de condenação na Justiça do Distrito Federal por difamação e injúria contra um professor. A candidatura de 2026 está deferida. A prisão de domingo não virou preventiva, e a soltura de segunda não apagou o que o vídeo de terça mostra. Quem cobriu a pintura passou a noite na federal e saiu sem pagar os R$ 20 mil que o Ministério Público queria. Quem está na frente do pilar, com o CV ainda legível acima da cabeça, é apresentado como estudante de artes visuais e convoca a cidade a repor a tinta. O repintasso, se cumprir o que o chamado anuncia, devolve cor a um muro em que a sigla da facção não precisou de autorização da reitoria para estar escrita. O país que prende quem cobre isso e batiza de arte quem quer refazer, inclusive o trecho em que se lê CV, já não distingue pichação de patrimônio.

