O Correio da Manhã publicou uma coluna em que trata Flávio Dino como ministro de passagem no Supremo. O argumento é político, não de calendário da Corte. Dino foi juiz federal entre 1994 e 2006, saiu aos 38 anos para se eleger deputado pelo PCdoB no Maranhão, governou o estado, foi senador e ministro da Justiça, e voltou à toga em 2023, indicado por Lula. Pela regra da aposentadoria aos 75 anos, o mandato pode durar cerca de duas décadas. Na sabatina, ele disse não cogitar retorno à política e lembrou que chorou ao aposentar a toga em 2006. A coluna lê a conduta recente pelo avesso dessa frase. Para o texto, o clima que Dino cria com os colegas é de quem não pretende ficar, ao contrário de Cristiano Zanin, e o destino que o autor enxerga é 2030, como sucessor de Lula, o que exigiria trabalhar agora pela reeleição do presidente.

Os episódios que a coluna usa como prova são desta semana e deste mês, e cada um tem registro próprio. No domingo (27), Dino suspendeu a ordem de André Mendonça, no TSE, que mandava plataformas retirarem publicações de Antonio Tabet e de outras pessoas ligando Flávio Bolsonaro à perda do título de padroeira do Brasil por Nossa Senhora Aparecida. O santuário e a CNBB disseram que o título não foi retirado. Na noite de segunda (28), Luiz Fux suspendeu a decisão de Dino, restaurou a retirada dos posts e escreveu que não faz sentido o Supremo determinar a veiculação de notícia comprovadamente falsa. A coluna chama isso de nova desautorização do colega, depois do embate em que Dino devolveu à Polícia Federal diretores que Mendonça tinha afastado no caso Master, eixo em que o nome do diretor-geral Andrei Rodrigues apareceu nas falas atribuídas a Daniel Vorcaro. O texto acrescenta a sucessão do Rio, em que Dino segurou o processo por 82 dias, devolveu os autos em 30 de junho e disse que esperava o acórdão do TSE sobre a inelegibilidade de Cláudio Castro. Antes da vista, Fux, Mendonça, Nunes Marques e Cármen Lúcia tinham votado pela escolha indireta do governador na Alerj. A irritação pessoal de Cármen Lúcia, “então presidente do TSE”, é frase da coluna, não um voto escrito nesse julgamento de 2026.

No sábado (26), Dino estava na Casa Fasano, em São Paulo, no casamento de Alexandre Barci de Moraes, filho de Alexandre de Moraes e de Viviane Barci, com Thaís. A coluna Igor Gadelha, no Metrópoles, registrou também Gilmar Mendes, o procurador-geral Paulo Gonet, o presidente do STJ, Luís Felipe Salomão, e o corregedor nacional Benedito Gonçalves. A cerimônia foi de Gabriel Chalita. Houve bloqueio de vias, Polícia Judicial, Polícia Militar e Guarda Civil, e a imprensa não chegou a menos de 200 metros, no meio da crise do Banco Master. A coluna do Correio chama a festa de milionária e a coloca ao lado de uma previsão: na próxima legislatura, Dino passaria à frente de Moraes na fila de pedidos de impeachment no Senado. Isso é leitura do autor. O que está documentado é a presença, dois dias antes de Fux derrubar a decisão dele sobre as publicações de Flávio.

O trecho sobre o Maranhão é o que a coluna comprime demais, e por isso precisa ser aberto. Carlos Brandão, que foi vice de Dino, é o governador. O texto diz que decisões recentes do ministro no estado miram o sucessor e que, pinçadas, alimentariam uma acusação de abuso de poder. Não lista os processos. O episódio do carro, que o mesmo texto junta à “quebra do segredo da fonte”, são dois fatos diferentes. Um vídeo de 2023 voltou a circular neste ano com a acusação de que Dino usava carro oficial para ir à praia. Ele respondeu que o veículo é particular, e o Tribunal de Justiça do Maranhão, em nota de 2024, negou ser o dono do automóvel das imagens. Outra apuração, do jornalista Luís Pablo Conceição Almeida, em novembro de 2025, tratou de uma Toyota Hilux SW4 blindada comprada pelo TJ-MA com dinheiro do fundo de segurança dos magistrados e do uso que a reportagem atribuiu a Dino e à família em São Luís. A investigação correu no Supremo, sob Alexandre de Moraes, com busca contra o jornalista e, segundo a defesa, identificação das fontes. Em 21 de setembro a defesa pediu o arquivamento e apontou quebra de sigilo da fonte. A coluna funde o vídeo da praia e essa investigação numa frase só. O que os dois papéis mostram, separados, é um ministro que responde a acusação de uso de bem público no estado que governou enquanto, em Brasília, sustenta decisões que o colega de TSE acaba de derrubar e senta, no sábado, na festa da família do ministro com quem vota junto. O mandato escrito vai até os 75 anos. A coluna aposta que a conduta não acompanha o prazo.