ESTATAL PORTOSRIO USA CONVÊNIO DE R$ 35 MILHÕES COM UFRJ PARA PAGAR REDE DE CABOS ELEITORAIS
Investigação do UOL revela que mais de 300 dos 544 bolsistas da primeira parcela têm vínculos políticos ligados ao grupo de Waguinho Carneiro. Última parcela prevista para setembro de 2026. PortosRio e UFRJ negam finalidade eleitoral.
Uma investigação exclusiva do UOL, publicada em 27 de julho de 2026, revelou que a estatal federal PortosRio (antiga Companhia Docas do Rio de Janeiro) firmou um convênio de R$ 35 milhões com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por meio do IVIG/COPPE e da Fundação Universitária José Bonifácio. O objetivo formal do acordo, assinado em dezembro de 2025, é assistência técnica e científica, estudos, capacitação e ações de integração entre os portos e as comunidades do entorno. A análise da folha de pagamento da primeira parcela (cerca de R$ 8,9 milhões) mostrou que, dos 544 bolsistas, mais de 300 possuem vínculos diretos com a política: pré-candidatos, ex-assessores, parentes de políticos, dirigentes partidários e militantes ligados ao grupo do ex-prefeito de Belford Roxo, Waguinho Carneiro (Republicanos), e da deputada federal Daniela do Waguinho. Alguns receberam bolsas de até R$ 150 mil.
O CONVÊNIO E O PERFIL DOS BOLSISTAS
O acordo prevê o repasse total em três parcelas, com a última programada para setembro de 2026 — mês anterior às eleições. A reportagem do UOL cruzou os nomes da primeira folha de pagamento e identificou centenas de beneficiários com atuação política na Baixada Fluminense e no Rio de Janeiro. Há casos de pré-candidatos que, enquanto recebiam as bolsas, organizavam eventos de campanha e atos políticos.
A OCUPAÇÃO POLÍTICA DA PORTOSRIO
Waguinho se aproximou de Lula nas eleições de 2022, abrindo espaço na Baixada Fluminense. Desde então, o grupo político dele colocou mais de 30 aliados em cargos de gestão e liderança na PortosRio, estatal vinculada ao Ministério de Portos e Aeroportos. O convênio foi celebrado sem licitação, com base em dispositivos que permitem parcerias com universidades. Uma auditoria interna da própria PortosRio chegou a suspender o acordo por questionar a falta de estudos de justificativa e o uso de recursos próprios, mas os pagamentos foram retomados.
AS RESPOSTAS OFICIAIS
A PortosRio nega ter contratado “rede de cabos eleitorais”. Afirma que o convênio é institucional com a UFRJ, que não mantém cadastro de filiação partidária e que a classificação política é do veículo de imprensa. A UFRJ informa que há dois grupos de bolsistas — um de apoio técnico-científico e outro de programa de extensão/cooperação comunitária — e que parte é indicada pela estatal para cursos. O Palácio do Planalto nega que Lula tenha escolhido Waguinho para influenciar politicamente a PortosRio. Após a reportagem, a UFRJ suspendeu os pagamentos e abriu sindicância.
O QUE ESTÁ EM JOGO
Não há evidência de que Lula tenha autorizado pessoalmente o convênio para fins eleitorais. O que a investigação demonstra é a ocupação política da estatal por aliados de um prefeito que se aproximou do presidente em 2022 e o uso de um instrumento formal de extensão universitária que, na prática, canalizou recursos públicos para pessoas com forte atuação política, em timing próximo às eleições. O caso levanta questionamentos sobre desvio de finalidade e uso de verba pública em ano eleitoral, com possível desdobramento em pedidos de investigação por órgãos de controle.

