Se ministros e chefes de Poder discutiram como enfraquecer o relator de investigações sensíveis, o problema deixou de ser simples bastidor e passou a atingir a independência da Justiça. Reportagem atribuída ao colunista Lauro Jardim, de O Globo, afirma que chegou ao gabinete de André Mendonça a informação de que Lula, Alexandre de Moraes e Davi Alcolumbre teriam conversado, durante jantar na casa de Moraes, sobre como fragilizar o ministro que conduz os casos Master e INSS. Até agora, porém, trata-se de relato de bastidores: não foi divulgada gravação, ata ou prova pública do teor da conversa.

O contexto torna a suspeita especialmente grave. Mendonça relata inquéritos que alcançam citações a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e resiste ao pedido da PGR para remeter uma das apurações à primeira instância. Isso alimenta a leitura política de uma tentativa de blindagem, mas não permite afirmar, sem prova adicional, que o jantar teve esse objetivo ou que Lula e Moraes praticaram crime. Ainda assim, a mera notícia de articulação para enfraquecer um relator exige explicações públicas: o Código de Ética da Magistratura proíbe interferência na atuação jurisdicional de outro juiz e exige independência e imparcialidade.

Se uma investigação demonstrar atuação político-partidária, interferência indevida em processo ou conduta incompatível com a honra e o decoro, a Lei 1.079/1950 prevê hipóteses de crime de responsabilidade de ministro do STF, sujeitas a denúncia e julgamento político pelo Senado. Um jantar, isoladamente, não configura impeachment; seriam indispensáveis fatos concretos, nexo com decisões e devido processo. Mas, diante da coincidência entre o encontro e a pressão sobre o relator de casos que incomodam o governo, o silêncio institucional só amplia a pergunta: quem está tentando colocar André Mendonça sob ataque — e por quê?