A Marinha do Brasil autorizou o navio de pesquisa Atlantic Explorer a trabalhar na Plataforma Amazônica entre 3 e 13 de outubro. A portaria saiu no Diário Oficial da União nesta terça-feira (29), segundo o Metrópoles, que tratou a embarcação como navio dos Estados Unidos. O dono não é a Marinha americana. O Atlantic Explorer pertence ao Instituto de Ciências Oceânicas das Bermudas, o BIOS, hoje ligado à Universidade Estadual do Arizona. É um navio de pesquisa, com o nome no casco, não um navio de guerra. O comando da Marinha brasileira é do almirante de esquadra Marcos Sampaio Olsen. A portaria, no relato publicado, não diz que a assinatura é dele. Diz que a Marinha deu o sinal verde e que, enquanto o navio estiver no país, um oficial embarca para supervisionar o trabalho.

O serviço declarado é medir a geração e o decaimento de marés internas na plataforma, em parceria com a Universidade de São Paulo. Maré interna é o movimento que a maré produz debaixo da superfície, na quebra da plataforma, onde a água do rio Amazonas encontra o Atlântico. Dez dias, uma faixa do litoral norte, um oficial brasileiro a bordo e uma universidade paulista como parceira. É o que a nota da Marinha, reproduzida pelo Metrópoles, coloca no papel. Não há, no texto divulgado, descrição de missão militar, nem abertura de bloco de petróleo, nem cessão do arquivo que a própria Marinha juntou para defender o limite da plataforma.

O lugar em que o navio vai medir é o mesmo que o Brasil passou décadas mapeando para dizer que é seu. Em março de 2025, a Comissão de Limites da Plataforma Continental da ONU aprovou o limite exterior proposto pelo país na Margem Equatorial e incorporou cerca de 360 mil quilômetros quadrados, da foz do Oiapoque, no Amapá, ao litoral norte do Rio Grande do Norte, sobre as bacias da foz do Amazonas, Pará-Maranhão, Barreirinhas, Ceará e Potiguar. A resolução foi publicada pela ONU em 26 de março de 2025. Os dados que sustentaram esse pedido saíram do Plano de Levantamento da Plataforma Continental, o LEPLAC, conduzido pela Marinha, e o próprio comando trata esse acervo como bem público, disponível a pesquisador brasileiro. Agora entra, por dez dias, um navio de instituto estrangeiro ligado a uma universidade do Arizona.

O calendário da autorização cai em cima da eleição. O navio deve estar em águas brasileiras de sexta (3), véspera do primeiro turno, até terça (13), com o segundo turno marcado para 25 de outubro. Nada na portaria, pelo que foi publicado, diz que a data foi escolhida por causa da urna. O que a portaria faz é abrir a janela. A supervisão anunciada é um oficial. O parceiro anunciado é a USP. O casco é de um instituto que responde a uma universidade americana, e a plataforma em que ele vai medir é a que o Brasil acabou de ter reconhecida como extensão do próprio território. O dado que sair desses dez dias não foi coletado pelo LEPLAC. Foi coletado por quem a Marinha deixou entrar.