Para milhões de brasileiros, o supermercado está caro, o cartão virou uma armadilha e o salário termina antes do mês. Para Lula, porém, parte dessa sensação nasce porque o povo está comprando mais. Em entrevista a Mariana Godoy, exibida pelo Domingo Espetacular neste domingo (23), o presidente afirmou que “o mundo do consumo mudou” e descreveu brasileiros que compram itens de R$ 5, R$ 15 ou R$ 20 pelo celular sem perceber quanto gastaram ao final do mês. Ao responder sobre o descompasso entre os indicadores oficiais e a carestia sentida nas ruas, Lula acabou transferindo ao consumidor uma parcela da responsabilidade pelo aperto — uma fala que soa ofensiva para quem não está comprando por impulso, mas lutando para pagar comida, energia, aluguel e juros.

A declaração se torna ainda mais grave porque o problema não cabe numa explicação sobre falta de educação financeira. O próprio Lula reconheceu que a Selic continua alta e defendeu que “o povo tem que consumir olhando o quanto ganha”. O governo pode alegar que a inflação acumulada de alimentos em sua gestão é inferior à registrada no período Bolsonaro, como fez o presidente na entrevista, mas índices médios não apagam a realidade individual: preços continuam elevados, famílias carregam dívidas e aproximadamente 70% dos brasileiros relatam perda de poder de compra. Quando o Palácio trata essa angústia como consequência de pequenos cliques no celular, demonstra distância da vida real.

Essa pode ter sido a maior gafe econômica da campanha de Lula. Em vez de acolher a reclamação e assumir que juros, tributos, crédito caro e decisões do próprio governo pesam no bolso, o presidente ofereceu ao eleitor uma espécie de sermão sobre como gastar. No contexto completo, Lula não disse literalmente que toda a inflação é “culpa do brasileiro”; ele também citou juros e defendeu educação financeira. Mas a essência política da fala permanece: diante de uma população que diz que tudo está caro, o presidente respondeu que ela compra mais do que deveria. E, em ano eleitoral, poucas frases têm potencial tão explosivo quanto sugerir ao cidadão apertado que o problema pode estar no próprio comportamento.