O Brasil começou a testar uma reforma que prometia simplificar os impostos, mas pode entregar ao consumidor uma das maiores alíquotas de IVA do mundo. Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, anunciou que um eventual governo revisará o modelo nos primeiros seis meses de mandato. O alvo é reduzir a alíquota estimada entre 26,5% e 28%, aproximando-a de 21%, sem interromper a implantação da CBS e do IBS.

O alerta é importante porque as exceções negociadas por diferentes setores estreitaram a base de cobrança e empurraram a alíquota geral para cima. Empresas de serviços intensivas em mão de obra podem sofrer mais, pois salários não geram créditos tributários; o split payment, que envia o imposto diretamente ao Fisco no momento do pagamento, ameaça o capital de giro; e a longa transição até 2033 obrigará empresas a conviver com sistemas antigos e novos, elevando custos de tecnologia, contratos e conformidade. A simplificação desejada corre o risco de começar com mais complexidade e pressão sobre preços.

A revisão defendida por Flávio é, portanto, necessária para impedir que a reforma se transforme apenas numa reorganização de impostos com carga elevada. Mas a promessa precisará sair do discurso: a campanha ainda não informou quais benefícios, regimes especiais e subsídios seriam cortados para financiar a redução do IVA. Além disso, o presidente não pode mudar sozinho uma reforma constitucional e suas leis complementares; dependerá de maioria no Congresso. Se apresentar números, compensações e uma base mais ampla, Flávio poderá converter a revisão em uma das medidas econômicas mais importantes de seu eventual governo. Sem isso, a redução para 21% continuará sendo apenas uma meta eleitoral.