Depois de meses elevando o tom contra Donald Trump, Lula precisou pegar o telefone e pedir a reabertura do diálogo. Nesta sexta-feira, 21 de agosto, o presidente brasileiro ligou para o americano e conversou por cerca de uma hora e vinte minutos. Lula contestou as alegações usadas pelos Estados Unidos para impor novas tarifas, afirmou que as acusações de trabalho forçado eram infundadas e pediu que as equipes retomassem as negociações. Trump concordou em preservar o canal comercial. Telefonemas entre chefes de Estado são normais, mas o momento transforma este em sinal de urgência — e, politicamente, de desespero: produtos brasileiros podem enfrentar sobretaxas combinadas de até 37,5%, e o confronto começou a cobrar uma conta que discursos sobre soberania não conseguem pagar.

O problema é que a ligação tenta apagar um incêndio enquanto Lula mantém acesas outras frentes. O petista condenou os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, chamou o conflito de “guerra do seu Trump e do seu Netanyahu” e afirmou que Teerã não produzia arma nuclear — posição elogiada pelo regime iraniano. O governo também rejeitou a classificação americana do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas e criticou sanções financeiras contra brasileiros. Essa resistência afeta os bancos: instituições que mantenham relações com pessoas ou empresas sancionadas podem sofrer restrições no sistema financeiro ligado ao dólar. Ao defender autonomia nacional, Lula aumenta o risco de colisão regulatória para o Banco do Brasil e instituições privadas.

Os “panda bonds” completam a contradição. Enquanto Lula telefona a Trump para tentar aliviar a pressão, o Tesouro prepara a captação de até 10 bilhões de yuans — aproximadamente US$ 1,48 bilhão — com a primeira emissão soberana brasileira no mercado doméstico chinês. A operação diversifica investidores e não significa abandonar o dólar, mas envia a Washington um sinal político de aproximação financeira com Pequim justamente quando os Estados Unidos tentam conter a expansão chinesa. Lula procura Trump porque precisa do mercado americano, mas escolhe Irã e China como símbolos de sua política externa. O resultado é um Brasil espremido entre potências, com exportadores, empresas e bancos pagando pelo confronto ideológico do Planalto.