Governo da Paraíba chama ação de Renan de retirada de entulho, mas facções já bloquearam ruas de João Pessoa
Candidato usou retroescavadeira e destruiu suposta câmera criminosa; PM contesta episódio específico, enquanto registros do Ministério Público confirmam barreiras impostas por facções na capital
Uma retroescavadeira no meio de uma comunidade de João Pessoa transformou um problema cotidiano de segurança pública em confronto político nacional. O candidato à Presidência Renan Santos (Missão) afirmou ter removido uma barricada erguida por criminosos no bairro do Grotão. Depois, em Santa Rita, retirou de um poste e destruiu uma câmera que, segundo ele, teria sido instalada por uma facção para vigiar a circulação de policiais.
A Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social da Paraíba reagiu. Sem citar o presidenciável, disse que o combate ao crime organizado envolve inteligência, tecnologia, prevenção, repressão qualificada, prisões e apreensões — e vai “muito além de retirada de entulhos de uma via pública”. O comandante da Polícia Militar, coronel Ronildo, foi mais direto: afirmou que não existia barricada naquele ponto, mas apenas lixo e entulho.
A resposta oficial pode estar correta sobre o amontoado removido por Renan. Entretanto, não elimina o problema denunciado. O próprio Ministério Público da Paraíba confirmou, meses antes, que facções criminosas haviam bloqueado ruas de João Pessoa e que uma operação conjunta foi necessária para liberar acessos. A controvérsia, portanto, não admite simplificação: é preciso apurar se aquele obstáculo específico tinha finalidade criminosa, mas também reconhecer que o domínio territorial por facções é realidade documentada no estado.
O que Renan Santos fez
Durante agenda na Paraíba, Renan contratou uma máquina e participou da remoção de materiais que obstruíam uma rua do Grotão. No vídeo, apresentou a ação como enfrentamento direto ao poder das facções e prometeu medidas mais duras contra o crime organizado.
Em Santa Rita, na Região Metropolitana, o candidato também arrancou uma câmera instalada num poste e a destruiu. Ele afirmou que o equipamento seria usado por criminosos para monitorar a aproximação das forças de segurança.
As cenas têm forte conteúdo eleitoral: exibem disposição, confronto e retomada simbólica do território. Mas imagens de campanha não substituem perícia. Para confirmar as duas alegações, seria necessário identificar quem colocou os materiais na rua, verificar se havia circulação bloqueada de forma deliberada, examinar o equipamento e rastrear sua instalação, alimentação elétrica e eventual transmissão de imagens.
A versão do governo da Paraíba
Em nota encaminhada ao Jornal da Paraíba, a Secretaria de Segurança afirmou que o enfrentamento às organizações criminosas é prioridade e citou operações realizadas em 2026, com prisões, apreensões de armas e drogas e ações integradas com outros estados.
A pasta sustentou que o trabalho policial exige capacidade técnica e treinamento e informou que a iniciativa do candidato não foi comunicada previamente às forças estaduais. Para o comando da PM, o material retirado no Grotão era lixo, não uma barreira operacional de facção.
A ausência de comunicação é um ponto relevante. Operações em áreas controladas por criminosos exigem avaliação de risco, preservação de provas e proteção de moradores. Uma ação individual pode expor trabalhadores, apoiadores e a própria comunidade a retaliações.
O problema das barricadas é comprovado
Embora conteste o episódio protagonizado por Renan, o poder público não pode negar que barricadas criminosas existem em João Pessoa. Em março, o Ministério Público da Paraíba, por meio do Gaeco, participou com as polícias Civil e Militar e a segurança municipal de uma ação para desobstruir vias bloqueadas por facções.
O MPPB explicou que essas estruturas dificultam o acesso de moradores, impedem a passagem de ambulâncias e outros veículos de emergência, limitam a ação policial e representam risco concreto à ordem pública.
Esse registro enfraquece qualquer tentativa de tratar a denúncia de controle territorial como fantasia eleitoral. Pode haver disputa factual sobre o objeto removido por Renan, mas a existência do método criminoso está confirmada pelas próprias instituições paraibanas.
Facções atuam além da barricada
A câmera retirada em Santa Rita também precisa ser contextualizada. Facções utilizam vigilância clandestina para acompanhar viaturas, proteger pontos de venda de drogas e antecipar operações. A comprovação, porém, depende de exame técnico. Uma câmera instalada irregularmente não é automaticamente equipamento de criminosos; pode pertencer a morador, comércio, associação ou serviço público.
A melhor providência seria preservar o aparelho e entregá-lo à Polícia Civil. Destruí-lo diante das câmeras pode eliminar dados, cartões de memória, impressões, números de série ou conexões capazes de identificar responsáveis. O gesto produz imagem política, mas pode reduzir o valor investigativo da peça.
Se o equipamento fosse de terceiro legítimo, a destruição também poderia gerar responsabilidade civil e, dependendo das circunstâncias e do dolo, discussão penal por dano. Se pertencesse efetivamente a uma organização criminosa e estivesse sendo utilizado para vigilância ilegal, ainda assim a preservação como prova seria mais útil do que a destruição.
Os números mostram avanço e vulnerabilidade
O quadro da Paraíba não pode ser resumido como fracasso absoluto. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública registrou queda de 3,9% na taxa de mortes violentas intencionais do estado em 2025, para 24,6 casos por 100 mil habitantes. Foram 1.026 mortes violentas, número ainda elevado, mas dentro de uma trajetória de redução.
Ao mesmo tempo, a Paraíba possui apenas 34,4% do efetivo de Polícia Civil previsto em lei, o terceiro menor percentual do país, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A falta de investigadores sobrecarrega inquéritos e limita a capacidade de desmontar redes financeiras, logísticas e territoriais.
Santa Rita apareceu entre os municípios mais violentos do país, com taxa de 60,9 mortes violentas por 100 mil habitantes, conforme dados do anuário. Isso ajuda a explicar por que a demonstração de Renan encontrou receptividade: moradores convivem com sinais concretos de presença criminosa, ainda que o objeto específico mostrado no vídeo continue sob contestação.
Operações reais estão em andamento
A atuação institucional também produz resultados. Em julho, a Força Integrada de Combate ao Crime Organizado da Paraíba cumpriu mandados de prisão, busca e apreensão e medidas de bloqueio patrimonial contra núcleos de uma organização atuante em Patos, Conde, Rio Grande do Norte e unidades prisionais.
Esse tipo de operação demonstra por que combater facções exige mais do que remover obstáculos: é preciso investigar líderes, comunicações, armas, drogas, empresas de fachada e dinheiro. A crítica feita pela Secretaria de Segurança é correta nesse aspecto.
Mas inteligência e ação simbólica não são excludentes. A retirada rápida de uma barreira também devolve mobilidade e demonstra presença estatal. O erro seria acreditar que uma retroescavadeira resolve a estrutura criminosa — ou, no sentido oposto, usar a complexidade do problema para minimizar sinais visíveis de controle territorial.
O debate na Jovem Pan
No programa Quem Tem Razão?, Oscar Filho ironizou o vídeo e afirmou que o material se parecia mais com acúmulo de lixo do que com uma barricada nos moldes conhecidos no Rio de Janeiro. Paula Nobre ponderou que a ação isolada não resolve o crime organizado, mas chama atenção para a expansão das facções no Nordeste, frequentemente subestimada no debate nacional.
As duas observações podem coexistir. A encenação eleitoral precisa ser examinada criticamente, e a denúncia sobre facções precisa ser levada a sério. O fato de o vídeo ser politicamente conveniente não torna falso o problema estrutural; o fato de o problema existir não prova automaticamente a versão apresentada sobre cada objeto.
Renan acusa desinteresse do governo
A assessoria do candidato respondeu que o desconhecimento das barricadas pela Secretaria demonstraria desinteresse do governador no combate às facções. A formulação extrapola o que foi dito pela pasta: o governo não negou a existência geral de barreiras criminosas, mas contestou que aquele amontoado específico fosse uma delas.
Renan também defendeu operações integradas entre União e estados, intervenção federal no Rio de Janeiro, endurecimento de penas e eliminação de lideranças criminosas. Prometeu ainda descumprir decisões do Supremo que, em sua avaliação, interferissem em operações de segurança.
Esse último ponto é juridicamente problemático. Presidente da República não possui autorização constitucional para selecionar decisões judiciais que cumprirá. Decisões podem ser impugnadas por recursos e ações próprias; o descumprimento deliberado ameaça a separação dos Poderes e pode gerar responsabilidade.
Quem tem razão?
Sobre o material retirado no Grotão, a PM possui a versão institucional e Renan possui a narrativa apresentada no vídeo. Sem laudo, imagens anteriores, testemunhos independentes ou demonstração do uso criminoso, não é possível afirmar categoricamente que se tratava de barricada de facção.
Sobre o problema maior, há documentação oficial a favor do alerta: facções já bloquearam ruas de João Pessoa e exigiram operação coordenada do Ministério Público e das forças de segurança. Câmeras clandestinas e controle de acessos são métodos conhecidos do crime organizado e precisam de investigação imediata.
A ação de Renan foi arriscada e eleitoralmente calculada, mas expôs uma cobrança legítima. A resposta do governo mostrou que existem operações e indicadores de redução da violência, mas errou se pretendeu encerrar o debate chamando tudo de entulho. Para o morador impedido de circular, a diferença entre lixo acumulado e barricada criminosa não pode depender de disputa de versões: precisa de presença permanente do Estado, retirada rápida, investigação e proteção contra a retomada do território.

