ESTEVES JANTOU COM FLÁVIO, FALOU 45 MINUTOS COM TRUMP E SENTOU COM LULA
O dono do BTG esteve no Trump National Golf Club no sábado, com Susie Wiles na mesa. Aliados leem roteiro eleitoral. O que o banco confirmou é outra coisa: economia, terras-raras e urna 'confiável'.
O banqueiro que jantou com Flávio Bolsonaro em 19 de agosto — André Esteves, chairman do BTG Pactual — passou 45 minutos com Donald Trump no sábado (29), no Trump National Golf Club, nos arredores de Washington. Susie Wiles, chefe de gabinete da Casa Branca, estava na conversa. Metrópoles publicou. Estadão, Folha, O Globo, CNN e Veja confirmaram. A assessoria do BTG admitiu o encontro à CNN.
Na segunda (31), o mesmo Esteves sentou à mesa de Lula no Palácio da Alvorada, no jantar com empresários. Antes e depois de Trump, interlocutores dizem que ele falou com o Planalto. O circuito é este: mansão de Flávio no Lago Sul, campo de golfe de Trump, residência oficial do petista. Em doze dias, o dono do maior banco de investimento da América Latina atravessou os três palcos da eleição brasileira.
O QUE FOI DITO — SEGUNDO AS FONTES
Interlocutores de Esteves, reproduzidos por O Globo e pelo Valor, descrevem a pauta assim: Trump perguntou das eleições de outubro, do desenvolvimento do Brasil e de investimento — energia, terras-raras, data center. Esteves teria respondido que o sistema eleitoral brasileiro é “totalmente confiável”, a mesma frase que Lula deu a Trump no telefonema de 21 de agosto. Falaram da Venezuela e da América Latina. Valor acrescenta: Esteves “não ouviu queixas de Trump” sobre o Brasil nem sobre os candidatos.
Isso é o que o entorno do banqueiro vazou. Não é ata da Casa Branca. Não é gravação. É recado de quem estava na sala, filtrado para jornal.
O QUE ALIADOS QUEREM LER
No campo de Flávio, a leitura que circula — e que o Reel trata como fato — é outra: Trump estaria desenhando um “novo roteiro” para a eleição brasileira e Esteves saberia o texto. A tese encosta em duas peças reais. Uma: Flávio já esteve no Salão Oval em maio, com Eduardo e Paulo Figueiredo; Trump depois postou a foto. Duas: o tarifaço de 25% segue no ar, as mesas comerciais reabriram nesta semana, e um banqueiro com canal nos dois lados vira correio.
Correio não é roteiro. Nenhum veículo que confirmou os 45 minutos publicou que Trump tenha definido candidato, interferência ou calendário. Quem transforma impressão de aliado em plano da Casa Branca está vendendo o que o despacho não contém.
POR QUE ESTEVES ESTÁ NA SALA
Esteves não é visita protocolar. É o quarto bilionário brasileiro na lista Forbes citada pela imprensa, amigo histórico de Paulo Guedes, interlocutor recorrente de Washington — já levou o dossiê do tarifaço ao governo Trump em dezembro de 2025. O BTG estimou até US$ 13 bilhões de perda de exportação num cenário cheio de tarifa. O banco tem interesse em minerais críticos e data center. Trump tem interesse em terras-raras. A conversa fecha no balanço, não necessariamente na urna.
O jantar com Flávio, em 19 de agosto, girou em torno de pesquisa, segundo O Antagonista. O jantar maior da Faria Lima, em 27 de agosto, foi na casa de Marcelo Kayath — Trabuco, Maluhy, Finkelsztain, Campos Neto. Esteves opera no corredor do meio: fala com o candidato do PL, com o presidente americano e com o presidente da República na mesma janela.
O CONTRADITÓRIO
O Planalto trata o episódio como canal útil no degelo comercial, não como tutela eleitoral estrangeira. Esteves avisou Brasília antes. Lula o recebeu. Se houvesse “roteiro” contra o petista, o anfitrião do Alvorada teria outra leitura — ou outra lista.
A campanha de Flávio prefere o símbolo: o banqueiro que sentou com Trump depois de sentar com o senador. O símbolo existe. A ata do “novo roteiro” não foi apresentada.
O fato, até prova em contrário, é este: 45 minutos, campo de golfe, Wiles na mesa, eleição perguntada, urna chamada de confiável, terras-raras na pauta, e um banqueiro que janta com os dois lados. O resto é desejo de campanha vestido de geopolítica. Enquanto Trump não assinar o texto, o roteiro continua sendo o de quem conta a história — não o da Casa Branca.

