O mercado começou a circular um nome novo para o Ministério da Fazenda de um eventual governo Flávio Bolsonaro. Não é Paulo Guedes. Não é Roberto Campos Neto. É Alexandre Bettamio, executivo brasileiro do Bank of America que hoje divide o comando global de Corporate e Investment Banking do banco americano.

A informação saiu na coluna de Igor Gadelha, no Metrópoles, na madrugada desta terça-feira (1º de setembro). Segundo a apuração, o nome foi levado a Flávio por gente da Faria Lima como alternativa ao de Marcelo Kayath, ex-presidente do Credit Suisse no Brasil e anfitrião do jantar da semana passada com banqueiros em São Paulo. A campanha do senador não anunciou escolha. Bettamio não assumiu. Cotado não é ministro.

QUEM É BETTAMIO

O currículo fecha com o que o mercado cobra de Flávio: alguém que a Faria Lima reconheça. Bettamio entrou no Bank of America em 2008, presidiu o banco no Brasil e na América Latina e, em 2023, virou o primeiro brasileiro a chegar a co-head global de investment banking de um grande banco americano, segundo a Reuters e a Bloomberg Línea. Em 2025, o BofA o promoveu a co-chairman de Global Corporate and Investment Banking, ao lado de Thomas Sheehan. A FINRA o registra em Nova York, na BofA Securities.

Em maio de 2026, o Pipeline/Valor escreveu que a B3 o sondou para CEO. Ele recusou e manteve o cargo global, com plano de operar a partir de São Paulo. Filho de oficial do Exército, passou por colégio militar e pela Aman — dado que a coluna destaca como perfil “bem visto” no clã Bolsonaro.

A DISPUTA POR TRÁS DO NOME

A Fazenda de Flávio já tem fila. Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e coordenadora econômica da campanha, é cotada. Kayath virou anfitrião e conselheiro. No jantar de 27 de agosto, executivos do Itaú, do Bradesco, do Santander e da B3 brincaram com os dois nomes — Marques na Casa Civil, Kayath na Fazenda. Agora entra Bettamio, empurrado por aliados ligados a Tarcísio de Freitas.

Gadelha escreve que Marques “não se oporia” a Bettamio na Fazenda. Nesse cenário, o grupo dela defenderia a Casa Civil para a administradora — posto com assento no Planalto. Bettamio é descrito como amigo de Paulo Guedes, padrinho político de Marques. A conta fecha para quem quer costura entre o mercado, o tucanato paulista e o bolsonarismo. Não fecha como decisão de governo. Governo ainda não existe.

O QUE FLÁVIO JÁ DISSE — E O QUE NÃO DISSE

No mesmo jantar, o candidato prometeu blindar a equipe econômica de indicação partidária, falou em disciplina fiscal, redução de Estado e troca do arcabouço pelo teto de gastos. Detalhe de como cortar 1,5% do PIB de despesa, os banqueiros não ouviram. Valor e Estadão registraram a mesma lacuna: recado político, planilha incompleta.

Flávio também já formalizou no plano de governo Adolfo Sachsida, Lyvia Montezano, Adriano Pires e mais sete técnicos. Nenhum deles é Bettamio. O executivo do BofA entra agora como peça de vitrine para um eleitorado que a campanha passou agosto inteiro tentando acalmar: o mercado que, no fim de 2025, precificou o “fator Flávio” com dólar em alta e bolsa em queda.

O CONTRADITÓRIO

Nem Flávio, nem o Bank of America, nem Bettamio confirmaram publicamente, até esta publicação, que há convite formal ou aceitação. A coluna trabalha com fontes do mercado e do entorno do candidato. Fonte sem nome não vira decreto.

Do outro lado, a campanha de Lula trata qualquer aproximação de Flávio com banqueiros como teatro de campanha. O PT já usou o caso Banco Master e o pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro — que Flávio classifica como patrocínio privado a filme, sem dinheiro público — para dizer que o senador não tem credencial para falar de Fazenda. São versões em disputa. O eleitor separa.

O QUE ESTÁ EM JOGO

Se Flávio quiser convencer quem financia e quem precifica o país, precisa de um nome com balanço internacional e sem ficha de partido na lapela. Bettamio serve a esse anúncio. Serve também à ala tucana que quer um pé na Fazenda caso o PL ganhe.

Enquanto o decreto não existe, o fato é outro: a campanha do principal adversário de Lula já não discute se haverá um “Posto Ipiranga”. Discute qual banco ocupa o posto. Isso, sozinho, já diz o tamanho da eleição — e o tamanho do rombo fiscal que o próximo ministro vai herdar.