A empresa de tecnologia 3Structure It LTDA, citada em investigação da Polícia Federal que apura eventual atuação de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), para prospectar negócios junto à administração pública, acumulou seis contratos com órgãos do governo federal que somam R$ 85,7 milhões. Os dados foram levantados a partir do Portal da Transparência, Comprasnet e Diário Oficial da União e confirmados por reportagens de veículos como Metrópoles, Estadão e CNN Brasil.

Os acordos têm como objeto soluções de tecnologia da informação, especialmente backup, armazenamento de dados e ambiente analítico. Ao menos cinco dos seis contratos foram precedidos de processo licitatório. A empresa foi fundada em 2019, tem sede em Florianópolis (SC) e uma filial em São Paulo aberta em 2023. O sócio Cleber Ribas de Oliveira é o empresário apontado pela PF na relação com Lulinha.

MAIOR VOLUME ESTÁ NO MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO

O contrato de maior valor é com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Em 2023 a pasta celebrou acordo para solução de sustentação do ambiente analítico de dados. Com aditivos, o valor acumulado ultrapassa R$ 42 milhões. Em abril de 2026 o mesmo ministério assinou outro contrato, de cerca de R$ 19,3 milhões, para implantação de nova solução de backup em substituição à existente. A empresa também mantém contratos de aproximadamente R$ 2,5 milhões com a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e de cerca de R$ 178 mil com o Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines), vinculado ao Ministério da Educação. Há ainda um contrato com a Telebras, de valor não divulgado publicamente.

Levantamentos da CNN Brasil apontam que a empresa possui cerca de R$ 55,7 milhões em contratos vigentes e já recebeu R$ 46,9 milhões em pagamentos do governo federal desde 2023 (incluindo empenhos e notas fiscais).

PF APURA SUSPEITA DE TRÁFICO DE INFLUÊNCIA E VIAGEM PAGA

Segundo a Polícia Federal, Lulinha teria atuado para prospectar negócios da 3Structure It junto a órgãos públicos, incluindo a Dataprev. O ministro do STF André Mendonça autorizou a abertura de inquérito específico sobre a relação entre o filho do presidente e o sócio Cleber Ribas de Oliveira. A investigação identifica indícios de que o empresário teria bancado ao menos uma viagem de Lulinha (localizador compartilhado para Foz do Iguaçu em dezembro de 2024). A PF também cita conexões com a empresária Roberta Luchsinger e com o lobista Antônio Camilo Antunes, o Careca do INSS.

A Dataprev afirmou não ter contrato com a 3Structure It e que atua com transparência. A existência dos contratos em si, celebrados em grande parte via licitação, não comprova irregularidade. O que está sob apuração é eventual uso de influência do filho do presidente em favor da empresa.

DEFESA NEGA IRREGULARIDADES E FALA EM “PESCA PROBATÓRIA”

A defesa de Lulinha classificou a investigação como “pesca probatória” (fishing expedition) e afirmou que a Polícia Federal não localizou prova de que ele tenha intercedido em favor de quem quer que seja no governo federal. O advogado Marco Aurélio de Carvalho, do grupo Prerrogativas, disse que não há fato objetivo que justifique o inquérito e apontou tentativa de interferência eleitoral.

A 3Structure It, por meio de nota da defesa de seu CEO Cleber Ribas, afirmou que todos os contratos foram firmados “com absoluta transparência”, em estrita observância da legislação de contratações públicas, sem intermediação de terceiros, e que a empresa possui capacidade técnica e certificações reconhecidas. Os contratos teriam sido objeto de auditorias do Tribunal de Contas da União. Ribas declarou ser amigo pessoal de Lulinha e negou irregularidades ou negócios com a Dataprev.

CONTRATOS E INVESTIGAÇÃO REACENDEM DEBATE SOBRE INFLUÊNCIA FAMILIAR

O caso se soma a outra investigação autorizada por Mendonça que apura eventual tráfico de influência e corrupção envolvendo Lulinha no Ministério da Saúde, relacionada a negócios de canabidiol e ao Careca do INSS. Para a oposição e setores da direita, os episódios reforçam a percepção de que familiares do presidente atuam em áreas sensíveis do governo. A apuração segue sob relatoria de André Mendonça no STF, com possibilidade de quebras de sigilo.