O JPMorgan ouviu os próprios clientes numa pesquisa mensal de mercados emergentes e, ponderando as respostas pelo volume de recursos que cada um administra, 59,7% disseram esperar a vitória de Flávio Bolsonaro e 40,3% a reeleição de Lula. Nenhum participante apontou outro nome. O relatório foi publicado nesta segunda-feira (28) e repercutido pelo Money Times e pelo InfoMoney. Faltavam seis dias para o primeiro turno. O número não é intenção de voto, não tem margem de erro de pesquisa eleitoral e não diz o que o eleitor vai fazer na cabine. Diz o que o investidor que aplica em país emergente acha que vai acontecer, e o peso de cada resposta cresce com o tamanho da carteira.

O que esses clientes acham que se mexe primeiro é o preço do dólar. Para 47%, o câmbio é a classe de ativos que deve ter o maior movimento com o resultado. Títulos em moeda local vêm em seguida, com 38%, e os derivativos de juros, com 15%. Praticamente ninguém espera que o crédito soberano ou o crédito de empresa seja o papel mais afetado. A leitura que o banco registra é a de que a eleição entra no mercado pela cotação da moeda e pela curva de juros, não pelo calote de um título. No mesmo relatório, o cenário-base do JPMorgan continua sendo o segundo turno entre Lula e Flávio. Uma vitória já no domingo deixou de ser hipótese remota, porque o apoio aos demais candidatos encolheu, mas ainda não é a hipótese central da casa. Mercados de previsão citados no texto davam cerca de 55% a Flávio e 45% a Lula, uma distância menor do que a da pesquisa com os clientes.

No campo fiscal, 87% esperam algum esforço de consolidação depois da eleição, e quase ninguém espera um choque. Medidas moderadas, com efeito entre 0,5% e 1,5% do PIB em 2027, são a aposta de 47%. Outros 39% esperam medidas mais amenas, na casa de 0,5% do PIB. Só 1% conta com um ajuste acima de 1,5%. Na outra ponta, 6% não veem anúncio capaz de mudar o déficit de forma relevante e 7% esperam medidas expansionistas, que aumentam o gasto em vez de reduzi-lo. O banco descreve a herança que o eleito recebe: dívida pública perto de 83% do PIB, contra 74% na eleição anterior, e déficit de 9,4% do PIB, contra 4%. Num desenho que o mercado leia como ruim para as contas, a volatilidade já precificada caberia num dólar perto de R$ 5,50. Para a Bolsa, a casa vê ação barata e investidor pouco posicionado, e trata a alta consistente como coisa que depende de o juro cair em direção a um patamar mais neutro, depois que saírem o nome da equipe econômica, a meta fiscal e o tamanho do apoio no Congresso.

Esse Congresso, no texto do banco, chega fragmentado, e o Senado é a casa que confirma diretor do Banco Central, conselheiro de agência reguladora e o ministro que o presidente indicar ao Supremo. A pesquisa de cliente e a pesquisa de eleitor medem coisas diferentes e, nesta semana, não contam a mesma história. Na Gerp divulgada nesta terça, com 2.400 entrevistas entre 24 e 28 de setembro, margem de dois pontos e registro BR-03929/2026, Flávio tem 44% e Lula 42% nos votos válidos do primeiro turno, um empate técnico, e 50% a 43% no segundo. O investidor do JPMorgan, com o dinheiro na mesa, já trata Flávio como favorito. O eleitor que o instituto ouviu ainda está dentro da margem. O ativo que a mesa espera ver andar é o câmbio, porque o ajuste fiscal que ela imagina para 2027, vença quem vencer, é moderado.