Brasil e EUA voltam à mesa: o que esperar da reunião sob pressão de Trump
Negociação de 31 de agosto pode abrir caminho para reduzir tarifas, mas Washington mantém uma extensa lista de cobranças ao governo Lula
Depois de meses de atritos, telefonemas cordiais e ameaças comerciais, Brasil e Estados Unidos voltarão à mesa — mas Lula não chega em posição confortável. Em 31 de agosto, o representante comercial americano Jamieson Greer e o ministro brasileiro Márcio Elias Rosa participarão de uma reunião virtual para discutir as tarifas impostas por Washington. Os presidentes não estarão presentes. O encontro foi proposto pelo governo Trump após uma conversa de uma hora e vinte minutos entre os dois líderes e representa uma tentativa de impedir que a crise avance sobre exportações, empregos e investimentos brasileiros.
A pauta, porém, vai muito além de uma simples alíquota. Washington cobra respostas sobre desmatamento, propriedade intelectual, combate à corrupção, etanol, Pix, acordos preferenciais e importações associadas a trabalho forçado. Em paralelo, persistem divergências sobre a classificação de facções criminosas, a proximidade de Brasília com regimes como Irã e Rússia e o uso do discurso de soberania para rebater pressões americanas. Para um governo que apostou no Brics e em gestos de aproximação com adversários estratégicos dos Estados Unidos, a reunião funciona como um teste: Lula terá de mostrar resultados concretos, e não apenas retórica diplomática.
O cenário mais provável é um avanço técnico, com cronograma de negociações e possível alívio pontual para alguns setores — não uma reconciliação instantânea. Trump costuma negociar com cordialidade enquanto preserva tarifas e outras ferramentas de pressão; por isso, o tom amistoso da ligação não deve ser confundido com concessão. Se Brasília insistir em tratar todas as cobranças como ataques à soberania, o impasse poderá continuar. Se apresentar compromissos verificáveis, a reunião pode ser a primeira saída real de uma crise que a política externa de Lula ajudou a ampliar.

