O Brasil de Fato não é porta-voz da direita. É o contrário. Mesmo assim, o perfil do veículo publicou neste domingo um post sobre “ingerência”: a prisão do argentino Fernando Cerimedo teria revelado uma rede que conecta Donald Trump, Javier Milei e Eduardo Bolsonaro, com o Brasil como “foco atual” da disputa continental.

O professor Gilberto Maringoni, da UFABC, militante histórico da esquerda e entrevistado do Conexão BdF, foi além. Disse que essa teia “implica o governo americano, a direita, a ultradireita israelense e vários governos da América Latina” ligada ao Escudo das Américas. E cravou: “Ganhar as eleições no Brasil para ele equivale a ganhar a guerra do Iraque.”

Quando a esquerda radical descreve o próprio governo Lula como peça de uma guerra de Washington, o eleitor não precisa comprar a teoria da conspiração. Precisa ler o que o campo petista já deu como premissa: o Palácio do Planalto entrou no mapa de prioridade de Trump.

O QUE É FATO SOBRE CERIMEDO

Fernando Cerimedo, dono do portal La Derecha Diario, foi estrategista digital da campanha de Milei em 2023 e aliado público de Eduardo Bolsonaro. Em 2022, fez live questionando as urnas brasileiras e foi o único estrangeiro indiciado pela Polícia Federal no inquérito da trama golpista. Ele não foi condenado no Brasil por esse indiciamento.

Em 18 de agosto de 2026, foi preso no Aeroporto Viru Viru, na Bolívia, quando tentava embarcar para a Argentina. O Ministério Público boliviano o aponta como mandante da tentativa de homicídio da ex-companheira Nadia Beller, baleada três vezes. Cerimedo nega. A Justiça local decretou prisão preventiva de 180 dias em Palmasola. Tentativa de feminicídio não é crime eleitoral. Quem transforma a cela de Santa Cruz em prova de golpe americano está misturando processos.

A ex-companheira disse à Folha que Cerimedo falou em “lutar” por Flávio Bolsonaro em 2026 e que se encontrou com Eduardo nos Estados Unidos no início de agosto. Isso é depoimento de parte. Não é sentença. Não autoriza tratar Flávio ou Eduardo como operadores de atentado.

O QUE WASHINGTON JÁ COLOCOU NO PAPEL

Em junho, Trump compartilhou artigo do portal conservador Newsmax que lista o Brasil entre os “grandes desafios” dos Estados Unidos na América Latina e chama a eleição presidencial brasileira de “a disputa mais importante do hemisfério”. A Agência Brasil registrou o recado: a eleição da maior nação da região virou teste da estratégia de “proeminência” no hemisfério, no documento de Segurança Nacional de 2025 e no chamado “Corolário Trump” da Doutrina Monroe.

Em julho, o Itamaraty recusou visto a dois funcionários do Departamento de Estado que viriam a Brasília “discutir integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão”. O Washington Post descreveu a viagem, segundo fontes, como tentativa de lançar dúvida sobre o processo brasileiro. O Departamento de Estado classificou essa leitura como “mentira sem fundamento” e negou qualquer manobra para minar a eleição. O TSE confirmou que a embaixada americana havia procurado a Corte, sem informar o tema.

O Escudo das Américas, lançado por Trump em 2026, reuniu governos alinhados — Argentina, Chile, El Salvador, Equador, entre outros — em cooperação contra crime organizado e o que Washington chama de “intrusos” no hemisfério. Brasil e México não aderiram. Lula trata a recusa como soberania. O PT tentará pintar qualquer adversário que elogie a classificação de PCC e Comando Vermelho como terroristas — tese defendida por Flávio, Zema e Caiado — como “sabujo de Trump”. A direita responderá que facção armada não é diplomacia.

O QUE A ESQUERDA QUER QUE O ELEITOR NÃO NOTE

Há anos o mesmo campo que hoje denuncia “ingerência” convive com financiamento, ONGs, fundações e narrativas importadas sem chamar isso de golpe. A novidade não é a existência de rede internacional. É o sinal invertido: o governo que se senta com Pequim e Teerã descobriu que Washington também joga no tabuleiro.

O colunista Guga Chacra, no Globo, ponderou no fim de agosto que Marco Rubio prefere Flávio, mas que Trump “não aparenta favorecer um ou outro candidato” e já elogiou Lula em público. É um contraponto obrigatório. Preferência de secretário de Estado não é tanque na Esplanada. Também não é irrelevância.

O Brasil de Fato chama o fenômeno de ingerência porque o alvo, desta vez, é o projeto lulista. Se a teia fosse a favor de Lula, o título seria “solidariedade democrática”. A assimetria denuncia o método, não apaga o dado: até o jornalismo militante da esquerda passou a tratar a reeleição de Lula como objeto de disputa americana.

O RISCO REAL, SEM O ROMANCE

Três camadas precisam ficar separadas.

Primeira: o processo penal de Cerimedo na Bolívia. Acusação grave. Presunção de inocência. Nada a ver, por si, com tarifa, urna ou chapa presidencial.

Segunda: a articulação política declarada da direita continental — Milei, Eduardo, CPAC, Escudo das Américas. Isso existe à luz do dia. Não precisa de live secreta.

Terceira: o interesse estratégico dos Estados Unidos no resultado de outubro. Trump já publicou que o Brasil é teste. O Itamaraty já barrada missão americana. Lula já recusou o Escudo. A esquerda já escreveu que perder o Brasil seria, para Washington, perder uma guerra.

Quem lê o post do Brasil de Fato só como denúncia contra “extrema direita” perde o aviso que o próprio veículo soltou: o presidente que governa o Brasil pode ser tratado, daqui até outubro, como peça de uma ofensiva geopolítica. Não é profecia. É o diagnóstico que a esquerda resolveu estampar no próprio Instagram.