SHELLENBERGER: MORAES TRAVOU STARLINK PARA DOBRAR O X. O SIGILO DE FONTE VEIO DEPOIS
Em entrevista ao Auriverde Brasil, o jornalista americano diz que a censura continua e cita o bloqueio de contas da Starlink, o recuo do X e a quebra do sigilo da fonte do jornalista Luís Pablo. As decisões do STF existem. Crime de corrupção, não.
Michael Shellenberger voltou ao Brasil pelo Zoom. Na entrevista ao canal Auriverde Brasil, publicada em 30 de agosto de 2026, o jornalista americano que divulgou os Twitter Files Brasil resumiu o que vê no país: a rede X sobreviveu, mas a censura, segundo ele, “ainda existe”. O ponto de partida foi a guerra de 2024 entre Alexandre de Moraes e Elon Musk — bloqueio do X, congelamento de contas da Starlink, multa e recuo da plataforma.
O convidado não trouxe documento novo na live. Trouxe leitura. E a leitura encosta em fatos que a imprensa brasileira já registrou: ordens do STF contra a rede de Musk, uso da Starlink como garantia de multa e, nas últimas semanas, a investigação que chegou à fonte do jornalista maranhense Luís Pablo Almeida.
O QUE SHELLENBERGER DISSE
O americano falou em português truncado e foi direto. Moraes, disse, “travou uma grande batalha contra Elon Musk”, congelou contas da Starlink e forçou o X a cumprir a censura para voltar a operar. O público brasileiro, na avaliação dele, aprendeu que houve “censura ilegal” à luz da Constituição e que existiram “listas negras” montadas à revelia do contraditório.
Shellenberger também afirmou que a “ditadura de Moraes” segue de pé, que jornalistas como David Ágape e Eli Vieira tiveram de deixar o país e que ele próprio lhes entregou o Westminster Free Speech Prize em Londres. Pediu mudança nas eleições. Se não houver mudança, prometeu continuar denunciando “abusos de poder”.
Isso é opinião de um jornalista estrangeiro alinhado à crítica ao ministro. Não é acórdão. Não é prova de peculato. Não autoriza tratar Moraes como condenado por corrupção.
O QUE ESTÁ DOCUMENTADO SOBRE O X E A STARLINK
Em agosto de 2024, Moraes determinou o bloqueio nacional do X por descumprimento de ordens do Supremo e o congelamento de ativos da Starlink para garantir o pagamento de multas da rede social. A BBC, a CNBC e o Correio Braziliense registraram a cronologia. Starlink e X são empresas distintas; a medida cruzou o grupo econômico de Musk para executar a pena pecuniária.
O X ficou fora do ar no Brasil. Depois pagou, indicou representante e voltou. Em setembro de 2024, o ministro determinou o desbloqueio das contas após o recolhimento de cerca de R$ 18,3 milhões. O serviço de internet via satélite, com centenas de milhares de clientes — muitos na Amazônia — foi usado como colateral judicial. Legalidade dessa extensão é controversa. O fato da ordem, não.
Os Twitter Files Brasil, publicados por Shellenberger em abril de 2024 a partir de documentos obtidos via Congresso americano, mostraram exigências do TSE/STF de remoção de contas e dados de usuários em procedimentos sob sigilo. Musk repercutiu. Moraes reagiu. A briga deixou de ser teórica.
O CASO LUÍS PABLO E O SIGILO DE FONTE
O âncora da live cobrou o episódio recente: Moraes teria quebrado o sigilo da fonte de um jornalista. O dossiê público confirma o núcleo, com nome certo.
Luís Pablo Conceição Almeida publicou reportagens sobre o uso de carro oficial do Tribunal de Justiça do Maranhão por familiares do ministro Flávio Dino. Dino classificou a cobertura como perseguição. Moraes autorizou investigação. Em março de 2026, a Polícia Federal apreendeu celulares e computador do jornalista. O material levou à identificação do ex-secretário Raimundo Cutrim como fonte. Em agosto, houve busca na casa de Cutrim.
O Comitê para a Proteção de Jornalistas, a SIP, O Globo, a Folha, o Estadão e a CNN trataram o episódio como risco à garantia do artigo 5º, XIV, da Constituição — o sigilo da fonte. Relatório da PF, segundo o Metrópoles e a coluna de Malu Gaspar, não apontou crime do jornalista na obtenção da pauta. Moraes sustentou que o sigilo não pode servir de escudo para ilícito. Em 28 de agosto, liberou à defesa de Luís Pablo o acesso aos autos.
Quebra de sigilo de fonte por via de apreensão de aparelho não precisa se chamar “ditadura” para ser grave. Basta o texto constitucional.
ÁGAPE, VIEIRA E O PRÊMIO EM LONDRES
David Ágape e Eli Vieira, coautores do Twitter Files Brasil e da série Vaza Toga, deixaram o país em novembro de 2025, segundo o próprio Vieira, sob temor de prisão. Em junho de 2026, em Londres, Shellenberger lhes entregou o Free Speech Courage Award da Civilization Works, ao lado do deputado Marcel van Hattem. Isso está documentado pelos premiados e pelo site Public.News, do próprio Shellenberger.
A tese dos dois jornalistas — uso de posts em redes para fundamentar prisões ligadas ao 8 de janeiro — é contestada pelo STF, que trata os processos como resposta a tentativa de golpe e a vandalismo nas sedes dos Três Poderes. As duas narrativas precisam aparecer. Nenhuma delas apaga a outra.
O CONTRADITÓRIO DO MINISTRO E DA CORTE
Moraes afirma que aplica a lei brasileira a plataformas que operam no Brasil, que o X descumpriu decisões e que Musk personalizou o conflito. Em entrevista à New Yorker, em 2025, o ministro disse que a empresa, “como todas as outras”, deve cumprir a legislação nacional. O governo Lula trata o episódio como defesa da soberania digital, não como censura política.
Há quem veja no inquérito das fake news e nas decisões monocráticas excesso de poder de um único ministro. Há quem veja omissão do Congresso — esvaziado em ano eleitoral, como o próprio estúdio da live descreveu a partir de Brasília. As duas críticas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.
O QUE A ENTREVISTA PEDE AO ELEITOR
Shellenberger espera que a eleição de outubro mude o quadro. Se não mudar, diz que seguirá denunciando. A frase é de campanha internacional pela liberdade de expressão. Não substitui o dever de separar fato e adjetivo.
Fato: o STF bloqueou o X e congelou a Starlink. Fato: o X cedeu e pagou. Fato: um jornalista que investigou o uso de carro oficial por familiares de um ministro do Supremo teve aparelhos apreendidos e a fonte identificada. Fato: colegas premiados no exterior vivem fora do Brasil.
Opinião de Shellenberger: isso é ditadura de um homem só. Opinião desta reportagem: um ministro que usa empresa de internet de outra marca para executar multa de rede social e chega à fonte de um repórter por cima da Constituição não precisa de metáfora importada. Precisa de freio. Liberdade de expressão não é favor do Supremo. É cláusula pétrea. Enquanto o Congresso fizer semana morta e o eleitor tratar o tema como torcida, o freio não vem.

