Vorcaro ensaia delação e pode abrir nova crise para Lula
Ex-dono do Banco Master tenta colaboração pela terceira vez e pode revelar como servidores da fiscalização do Banco Central teriam favorecido o banco
Daniel Vorcaro sinaliza que pode ampliar sua colaboração com as autoridades e tenta, pela terceira vez, viabilizar um acordo de delação premiada. O ex-controlador do Banco Master foi chamado a depor sobre a relação com dois ex-integrantes da fiscalização do Banco Central, mas a oitiva desta quinta-feira foi adiada por problemas técnicos na videoconferência. A investigação apura se Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão, e Paulo Sérgio Souza, ex-diretor de Fiscalização, receberam vantagens e repassaram informações ou orientações que teriam beneficiado o Master durante sua crise de liquidez. As defesas ainda poderão contestar as acusações, e não há condenação definitiva nesse inquérito.
Uma colaboração de Vorcaro pode ser explosiva se explicar quem montou a rede de proteção do banco, quais agentes públicos receberam benefícios e se houve pressão política sobre o regulador. Para ser aceita, porém, a proposta precisa trazer fatos novos, provas verificáveis e utilidade real; versões anteriores foram consideradas insuficientes pela Polícia Federal. Vorcaro continua na condição de investigado, e uma promessa de “não ficar calado” não equivale a delação homologada nem transforma suas futuras declarações em verdade automática.
O caso produz risco político para Lula porque Gabriel Galípolo, atual presidente do Banco Central, foi indicado pelo presidente e porque houve uma reunião de Lula com Vorcaro antes da liquidação do Master. Isso não comprova participação do governo: Galípolo declarou que recebeu de Lula orientação para agir tecnicamente, e os servidores suspeitos foram afastados durante sua gestão por ordem de André Mendonça. Ainda assim, se Vorcaro apresentar provas de interferência, proteção ou conhecimento de irregularidades por integrantes da administração, a crise pode avançar da fiscalização do BC para a ala política do governo. Sem esses elementos, responsabilizar Galípolo ou Lula apenas pela nomeação seria uma conclusão juridicamente indevida.

