Operação do ICE pode impactar voto no Brasil
Medo de abordagens migratórias pode aumentar a abstenção de 265 mil brasileiros registrados nos Estados Unidos e pesar mais contra Flávio Bolsonaro
As operações do ICE podem afetar a eleição brasileira não porque estrangeiros votem no Brasil, mas porque aproximadamente 265 mil cidadãos brasileiros estão registrados para votar nos Estados Unidos. Parte dessa comunidade vive sem visto ou residência permanente e teme sair de casa ou permanecer em filas nos locais de votação em 4 de outubro. O Consulado do Brasil em Nova York, responsável também por Nova Jersey e Filadélfia, escolheu um complexo educacional no Queens com proteção contra entradas do ICE, enquanto autoridades demonstram preocupação especial com a Flórida, onde há forte cooperação das forças locais com a agência migratória.
O receio cresceu após o ICE prender quase 50 mil pessoas em julho de 2026, cerca de 70% a mais que em fevereiro, segundo dados divulgados pela imprensa americana e pelo UOL. Até agora, porém, não existe anúncio de uma operação do ICE dirigida aos postos eleitorais brasileiros; o efeito concreto é o medo antecipado, capaz de elevar a abstenção mesmo sem agentes nas proximidades. Uma eventual deportação antes da eleição também não elimina automaticamente a cidadania nem o direito eleitoral brasileiro, mas pode impedir o comparecimento ao posto em que o eleitor estava registrado, dependendo do prazo e das regras para transferência ou voto em trânsito.
Politicamente, o prejuízo potencial parece maior para Flávio Bolsonaro. No segundo turno de 2022, Jair Bolsonaro obteve 65,48% dos votos brasileiros nos Estados Unidos, enquanto Lula venceu no conjunto do eleitorado no exterior. Se a abstenção crescer de maneira semelhante entre os diferentes grupos, Flávio tende a perder mais votos absolutos naquele país; Lula seria beneficiado apenas de forma relativa, porque ausência não se transforma em voto petista. Há ainda um efeito incerto: brasileiros atingidos pela política migratória de Trump podem se afastar do candidato associado ao presidente americano, mas outros podem manter a preferência conservadora. Sem pesquisa específica entre os eleitores brasileiros nos EUA, qualquer cálculo além dessa tendência seria especulação.

