Donald Trump anunciou nesta sexta-feira, 6 de novembro, que Stephen Miller assumirá o cargo de chefe de gabinete da Casa Branca a partir de segunda-feira, no lugar de Susie Wiles. Em post no Truth Social, o presidente chamou Miller de um de seus “assessores mais confiáveis” e afirmou que Wiles, que comandava a Casa Branca desde o início do segundo mandato, passará para a operação política de Trump. A mudança ocorre três dias depois de os republicanos perderem o controle da Câmara e do Senado nas eleições de meio de mandato.

Miller, de 41 anos, já atuava como vice-chefe de gabinete para política e assessor de Segurança Interna. Ele é o principal formulador das políticas mais rígidas de imigração e deportação em massa da gestão Trump, incluindo o reforço da fronteira e o aumento das operações do ICE. Conservadores próximos ao núcleo MAGA, como o vice-presidente JD Vance e o secretário de Defesa Pete Hegseth, saudaram a promoção. Vance escreveu que Miller é “um patriota incrível” e a elevação é “bem merecida”. Hegseth afirmou que ele “nunca recua”. Steve Bannon descreveu Miller como alguém que “conhece os temas centrais e é um verdadeiro crente”.

A nomeação indica que Trump pretende reforçar a base MAGA nos dois anos finais do mandato, em vez de buscar moderação após a derrota eleitoral. Wiles era vista por alguns como uma voz mais equilibradora; Miller representa a continuidade e o aprofundamento da agenda dura. Fontes da Casa Branca apontaram que Trump ficou irritado com a estratégia que levou às perdas e que a troca foi amigável, com Wiles entregando a renúncia na quinta-feira à noite.

Para o Brasil e a esquerda latino-americana, a elevação de Miller pode representar uma dor de cabeça maior. Miller tem contatos com bolsonaristas, incluindo Eduardo Bolsonaro, e já criticou publicamente a condução do ministro Alexandre de Moraes, do STF, em casos de liberdade de expressão e processos envolvendo Jair Bolsonaro. Em agosto, ao SBT, ele descreveu a detenção de Bolsonaro como “injusta e ilegal” e vinculou tarifas americanas sobre o Brasil às políticas de restrição à liberdade de expressão e à perseguição ao ex-presidente. A Folha registrou que Miller incentivou Filipe Martins, ex-assessor internacional de Bolsonaro, a buscar esclarecimentos judiciais nos EUA.

Ao lado de Marco Rubio, secretário de Estado, Miller consolida uma linha menos complacente com o que conservadores descrevem como arbitrariedade judicial e cerceamento de plataformas digitais no Brasil. A nomeação reduz a margem para notas diplomáticas brandas e coloca denúncias de censura e abusos de poder mais perto da mesa executiva americana. Para Lula e governos de esquerda na região, isso significa maior risco de pressão americana sobre temas de soberania digital, liberdade de expressão e alinhamento com a China, especialmente depois que os EUA já aplicaram sanções a Moraes e medidas relacionadas ao hemisfério.

Conservadores brasileiros e americanos veem a escolha como o fim de um período de tolerância relativa com ativismo judicial na América Latina. Miller não atua como burocrata neutro: sua trajetória é de defesa explícita da aplicação rigorosa da lei na fronteira e de oposição a regimes que, na visão da Casa Branca, restringem a liberdade. A esquerda americana, por sua vez, reagiu com ataques, com líderes democratas chamando Miller de “xenófobo perigoso” e prometendo investigações no Congresso que passam a controlar a partir de janeiro. No Brasil, o sinal é de que a Casa Branca sob Miller tende a tratar censura e perseguição política como ameaças concretas, não como questões internas isoladas.

A promoção, portanto, não é apenas troca de nome: é a consolidação de um núcleo duro que já demonstrou disposição de usar ferramentas americanas — tarifas, sanções, pressão diplomática — contra o que considera excessos de governos de esquerda e de cortes constitucionais na região. Lula tem motivos concretos para monitorar de perto as próximas movimentações da Casa Branca.