Peña não comparece ao Senado no julgamento de impeachment por crise do Banco Ueno
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, não compareceu presencialmente à sessão do Senado nesta sexta-feira (6/11). A Casa decide sobre o impeachment do mandatário em meio à crise bancária causada pela intervenção do Banco Central no Ueno, o maior banco digital do país.
No lugar, Peña enviou dois advogados para representá-lo: Ricardo Preda e Adolfo Ferreiro. Ambos discursaram perante os senadores. A defesa havia pedido ao Congresso uma prorrogação de 72 horas no prazo para apresentação da defesa, mas o pedido foi rejeitado. Segundo o próprio presidente, ele foi notificado na noite de quinta-feira com uma peça acusatória e cerca de 300 páginas de anexos, o que, na avaliação dele, não garantia o devido processo.
O pedido de impeachment contra Peña foi apresentado na quinta-feira (5/11) por um grupo de 35 deputados. A abertura do processo foi aprovada na Câmara por unanimidade, com 78 votos, e o caso seguiu para o Senado. Peña chegou a anunciar renúncia ao cargo no mesmo dia, mas o Parlamento não analisou o pedido por falta de quórum ou optou por seguir com o julgamento. Fontes como a Reuters e a Associated Press registram que a renúncia ainda não foi formalmente aceita e que o mandatário permanece no cargo enquanto o processo tramita.
A crise começou na terça-feira, quando o Banco Central do Paraguai interveio no Ueno após constatar que a instituição não atendia aos requisitos mínimos de solvência. O banco tinha cerca de 3 milhões de clientes em um país de aproximadamente 6,5 milhões de habitantes e concentrava centenas de milhões de dólares em depósitos públicos, incluindo recursos previdenciários. A intervenção congelou o acesso de milhões de pessoas às próprias contas e gerou protestos em Assunção.
As acusações contra Peña incluem conflito de interesses, mau desempenho das funções e questionamentos sobre o uso de recursos públicos. O presidente manteve participação acionária na holding ligada ao Ueno (Grupo Vázquez) até março de 2025 e nomeou um ex-executivo do banco para a presidência do Banco Central. Peña nega irregularidades e afirma que o caso é de natureza regulatória. O mentor político de Peña e líder do Partido Colorado, ex-presidente Horacio Cartes, chegou a apoiar publicamente a destituição.
O vice-presidente Pedro Alliana, que sobreviveu a um pedido de impeachment na Câmara, é o sucessor constitucional caso o Senado condene Peña. Para a destituição definitiva são necessários dois terços dos votos no Senado. O Ministério Público também abriu investigações criminais relacionadas à crise do Ueno, incluindo denúncias que envolvem autoridades do governo.
O episódio expõe a fragilidade de um sistema financeiro que cresceu rápido e concentrou recursos de quase metade da população, ao mesmo tempo em que coloca sob escrutínio as relações entre poder político e instituições reguladoras. A decisão final do Senado determinará se Peña deixa o cargo por renúncia ou por impeachment, o que pode afetar também eventuais prerrogativas de ex-presidente previstas na Constituição paraguaia.

