O governo Lula invoca a soberania nacional para reagir aos Estados Unidos, mas uma pergunta incômoda permanece: que soberania possui o brasileiro obrigado a viver sob as ordens de uma facção? PCC e Comando Vermelho foram classificados pelo governo Donald Trump como organizações terroristas estrangeiras e terroristas globais, medida que entrou em vigor em 5 de junho. Lula chamou a decisão de interferência indevida e advertiu contra qualquer pretexto para intervenção. Defender a integridade territorial do Brasil é dever de qualquer presidente; o problema começa quando esse discurso parece mais duro contra Washington do que contra estruturas criminosas que controlam comunidades, rotas, presídios e atividades econômicas.

Onde traficantes decretam toque de recolher, expulsam moradores, cobram taxas, decidem quem pode circular e substituem o poder público pela força das armas, existe um Estado paralelo. Para milhões de brasileiros, a soberania já foi violada dentro do próprio país. Nesse cenário, rejeitar cooperação internacional apenas em nome de uma soberania abstrata não devolve liberdade a quem está dominado pelo crime. A resposta responsável seria liderar o combate, recuperar territórios, sufocar o dinheiro das facções e negociar mecanismos de cooperação que respeitem a Constituição — em vez de transformar o tema somente em confronto ideológico com Trump.

A designação americana amplia bloqueios de bens sob jurisdição dos EUA, restrições migratórias e o risco de punições a quem prestar apoio material às facções. Ela também pode atingir empresas e operações financeiras ligadas, ainda que indiretamente, às redes criminosas. Mas não autoriza automaticamente tropas americanas a agir no Brasil, nem elimina a competência das autoridades brasileiras. A crítica central, portanto, não exige abrir mão da soberania: exige exercê-la de verdade. Um país soberano não apenas repele interferências externas; ele impede que criminosos governem brasileiros dentro de suas próprias fronteiras.