Acusado de dopar e estuprar ex é solto e escancara dois pesos da Justiça
Suspeito de manter mulher em cárcere por quatro dias responderá em liberdade; ausência de documentos médicos foi apontada como fundamento
Uma mulher precisou fingir que engolia o remédio usado para dopá-la, esperar o agressor sair e fugir sozinha depois de quatro dias de terror. Mesmo assim, o homem preso em flagrante foi colocado em liberdade no dia seguinte. Valter Santana, de 46 anos, é acusado de arrastar a ex-companheira pelos cabelos, mantê-la trancada, agredi-la, ameaçá-la e submetê-la a violência sexual em Campinas. Ele nega culpa por presunção constitucional até eventual condenação, mas a gravidade dos relatos e os ferimentos descritos pela Guarda Municipal tornam a soltura difícil de compreender.
Segundo o Ministério Público de São Paulo, o fundamento informado foi a ausência, na audiência de custódia, do laudo do IML e do prontuário médico da vítima. A Justiça aplicou medidas cautelares: comparecimento aos atos processuais, endereço atualizado e proibição de deixar a comarca por mais de sete dias sem autorização. O processo corre em segredo, portanto a íntegra da fundamentação não está disponível. Ainda assim, fica a pergunta incômoda: por que uma falha estatal na apresentação de documentos termina favorecendo o acusado e aumentando o medo de quem precisou fugir para sobreviver?
O contraste com os processos do 8 de Janeiro alimenta a indignação. Houve réus primários mantidos preventivamente por longos períodos — Débora Rodrigues, por exemplo, ficou cerca de dois anos presa antes da conversão em domiciliar — sob fundamentos ligados à ordem pública e à aplicação da lei penal. Os processos, acusações e competências são diferentes, e primariedade não garante soltura. Mas a diferença de rigor é impossível de ignorar: diante de acusações concretas de violência sexual e cárcere, faltaram documentos e prevaleceram cautelares brandas; em casos políticos, a prisão extrema foi sustentada por anos. Justiça coerente não pode parecer severa com uns e tolerante com outros.

