FLÁVIO: SE O PAI QUISER SER MINISTRO, 'VAI DEPENDER DELE'
No Domingo Espetacular, o candidato do PL recusou fechar cargo para Jair Bolsonaro, prometeu anistia ou indulto e disse que indicará quatro nomes ao STF contra aborto e drogas. A condenação do ex-presidente no Supremo permanece em vigor.
Em entrevista ao Domingo Espetacular, da Record, neste domingo (30 de agosto), o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) foi perguntado se o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, seria ministro de um eventual governo. A resposta foi calculada: ele nunca conversou com o pai sobre o interesse no cargo e, se houver vontade, “vai depender dele”.
O senador fez questão de manter o ex-presidente no centro da campanha. Disse que ouve Bolsonaro “em cada passo”, pensa nele “todos os segundos” e o descreveu como o melhor quadro político que o Brasil poderia ter — “competente” e “patriota honesto”, na formulação do filho. Ministro, porém, não foi prometido. Conselheiro, sim.
O QUE FLÁVIO DISSE SOBRE O PAI NO GOVERNO
A jornalista Mariana Godoy cobrou o lugar de Jair Bolsonaro num eventual ministério. Flávio admitiu que o pai “obviamente” participaria de alguma forma, mas evitou transformar a conversa em nomeação antecipada.
“Aí vai depender da vontade dele”, afirmou, segundo o recorte da própria Record e o trecho do vídeo do UOL.
A distinção importa. Flávio não anunciou Jair Bolsonaro ministro. Também não fechou a porta. Deixou o cargo pendurado na vontade de um condenado que hoje cumpre prisão domiciliar e está inelegível — decisão do Supremo Tribunal Federal, não opinião de palanque.
ANISTIA NO CONGRESSO, INDULTO SE NÃO DER TEMPO
O candidato repetiu a linha que já havia usado na sabatina da Globo, na sexta (28): trabalhar no Congresso pela anistia a Jair Bolsonaro e aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023. Se a lei não sair a tempo, prometeu indulto presidencial.
Anistia é ato do Congresso. Indulto é prerrogativa do presidente da República. Nenhum dos dois existe ainda. São promessas de campanha.
Flávio classificou o julgamento do pai como “grande farsa”. Disse que Bolsonaro foi julgado por “inimigos”, citando Flávio Dino, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes. Essa é a versão do candidato. O fato jurídico é outro: o STF condenou Jair Bolsonaro, em setembro de 2025, por tentativa de golpe de Estado, a 27 anos de prisão. A pena não transitou em julgado da forma que extinga o debate político, mas a condenação existe e produz efeitos. Tratar o acórdão como se nunca tivesse havido processo é propaganda, não descrição do processo.
QUATRO VAGAS NO STF E O PERFIL ANUNCIADO
Flávio afirmou que o próximo presidente indicará quatro ministros ao Supremo — a vaga de André Mendonça, não preenchida, e outras três no mandato. O recado foi doutrinário: homens e mulheres contra o aborto, contra as drogas, “patriotas”, empenhados em “trazer a segurança jurídica de volta” e “resgatar a credibilidade do Supremo”.
Nomes, não deu. “Se eu indico agora, já começa a tomar saraivada de matérias”, disse. O perfil, sozinho, já é programa: reconstruir a Corte à imagem do eleitorado conservador que o PL quer mobilizar.
O CONTRADITÓRIO QUE O ELEITOR PRECISA OUVIR
Quem defende a condenação de Bolsonaro no STF argumenta que houve devido processo, provas e votação do plenário. Quatro ministros — Moraes, Dino, Zanin e Cármen Lúcia — votaram pela culpabilidade no núcleo citado pelo próprio Flávio na Globo. A Corte trata o 8 de janeiro e a trama golpista como crimes, não como “perseguição abstrata”.
A campanha de Flávio responde que o julgamento foi político, que o pai foi afastado da vida pública por adversários e que anistia ou indulto restaurariam o que chama de normalidade democrática. Essa é a tese da candidatura. Não é sentença revertida.
Tampouco há, até aqui, ato formal de Jair Bolsonaro pedindo ministério. O que há é o filho deixando a cadeira aberta e o eleitorado bolsonarista ouvindo o que quer ouvir: o capitão volta, de um jeito ou de outro.
O QUE A ENTREVISTA REVELA SOBRE A CAMPANHA
Flávio disputa o primeiro turno de 4 de outubro como herdeiro declarado do nome. A convenção do PL, em julho, oficializou a chancela paterna. A Record, dois dias depois da Globo, serviu para repetir o núcleo duro: pai conselheiro, anistia, STF e valores.
Na avaliação editorial desta reportagem, o senador acerta ao recusar o silêncio sobre o ativismo judicial e sobre a seletividade com que o sistema trata aliados e adversários. Erra — e o eleitor deve registrar — se transformar promessa de perdão em apagamento do que o tribunal decidiu. Liberdade de expressão inclui chamar o julgamento de farsa. Estado de Direito inclui dizer que a farsa, para valer no mundo jurídico, precisa ser desfeita por lei, por revisão ou por novo julgamento — não por entrevista de domingo.
Se Jair Bolsonaro quiser o ministério, Flávio já disse o essencial: dependerá dele. O país, no entanto, depende de saber se o próximo presidente pretende governar com a Constituição ou contra o acórdão que ainda está de pé.

