A Rússia afirmou que poderá atingir alvos militares britânicos dentro e fora da Ucrânia, elevando a tensão direta com o Reino Unido. A ameaça veio depois de Londres permitir que Kiev tenha acesso à tecnologia sigilosa necessária para produzir mísseis de cruzeiro Storm Shadow, capazes de alcançar território russo. Moscou acusa britânicos e franceses de estarem “brincando com fogo”, mas ainda não há informação de uma ordem russa para atacar o território do Reino Unido. Um ataque convencional contra o país acionaria uma crise muito mais grave, porque Londres integra a OTAN e poderia invocar a defesa coletiva do artigo 5º.

O alerta ganhou peso após a viagem sem anúncio prévio do diretor da CIA, John Ratcliffe, a Moscou, onde ele se reuniu com Sergei Naryshkin, chefe do serviço de inteligência externa da Rússia. A reunião foi confirmada pelos russos; veículos americanos informaram, com base em fontes, que Ratcliffe teria levado um aviso contra qualquer tentativa de testar a OTAN, embora Washington e Moscou não tenham confirmado esse conteúdo. Donald Trump chamou a missão de “semirrotineira”, e o Kremlin negou planos de agressão. Ratcliffe não se encontrou com Vladimir Putin, o que indica um canal reservado de contenção entre serviços de inteligência, não a comprovação de um acordo secreto.

É nesse ambiente que ganha força a leitura, associada por Demétrio Magnoli ao retorno da política do “mais forte”, de uma ordem baseada em áreas de influência: Trump predominaria nas Américas, Putin buscaria liberdade de ação no entorno russo e Xi Jinping ampliaria o domínio chinês na Ásia. A política de Trump realmente recupera a lógica da Doutrina Monroe — formulada em 1823 para afastar potências externas do continente — e a transforma em defesa ativa da primazia americana no Hemisfério Ocidental. Porém, não há prova pública de um grande pacto tripartite: a rivalidade dos Estados Unidos com a China na Ásia e o aviso da CIA à Rússia contradizem uma divisão plenamente aceita. O cenário mais provável é um entendimento informal e instável, no qual cada potência tenta impor sua zona de influência sem reconhecer oficialmente o direito das demais de fazer o mesmo.