A contradição de Renan Santos não está numa declaração de apoio a Lula. Está no caminho que ele usou, e no papel que o PT já tinha reservado para ele, na noite em que o debate da Globo foi cancelado. A coluna de Milena Teixeira, no Metrópoles, publicada na quinta (1º) às 19h08, diz que o QG de Lula comemorava a cadeira vazia e torcia para Renan entrar no estúdio. A conta da campanha era simples: se Flávio ficasse sozinho, atacaria o presidente ausente; com Renan lá, Flávio teria de se defender dos ataques do Missão, e Lula deixaria de ser o assunto.

Quem levou o pedido a Gilmar Mendes foi o Solidariedade, de Paulinho da Força, deputado que a CNN descreve como um dos mais próximos de Alexandre de Moraes e do próprio Gilmar. A petição não era um processo novo. Entrou numa reclamação que Gilmar já tinha decidido, sobre a candidatura de Deltan Dallagnol ao Senado, e citava decisões de Flávio Dino que derrubaram o TSE. Kassio Nunes Marques, no TSE, e Cármen Lúcia, no STF, já tinham dito não. A Gazeta Brasil afirmou que Paulinho disse à jornalista Malu Gaspar que o próprio Renan pediu a ação, e que Renan nega. Malu, na GloboNews, registrou outro ponto: Flávio já tinha exigido que não iria se Renan estivesse no debate, porque Renan, nas palavras dela, sabidamente viria para fustigá-lo. Paulo Cappelli tratou o episódio como Renan usando o STF para atropelar a Justiça Eleitoral.

O discurso público de Renan é outro. Em agosto, no debate da Band, chamou Lula de canalha e Flávio de cagão, e posou com fraldas nos púlpitos vazios dos dois. Em 27 de setembro, em Salvador, disse que se fosse votar num bandido já teria votado em Lula antes, e a Folha e o Metrópoles registraram que ele descartou apoiar qualquer um dos dois num segundo turno. Na mesma noite da decisão de Gilmar, voltou a circular a foto do ministro com Kim Kataguiri, único deputado federal do Missão, que estudou no IDP, do qual Gilmar é sócio, e disse ter tido aula com ele. Gilmar também falou no congresso do MBL em 2016, movimento que Renan fundou. O que a quinta mostrou, sem precisar dessa foto, é o desenho: o candidato que xinga Lula entrou no último debate pela porta de Paulinho e de Gilmar, no exato cenário em que o QG do PT torcia para ele ocupar o Flávio.