A BandNews registrou, no dia 23, a articulação que a Folha descreveu na mesma data: aliados de Lula, diante do cenário de segundo turno contra Flávio Bolsonaro, tentam ao menos a neutralidade nacional do PSD e buscam alguma ponte com o grupo de Augusto Cury, do Avante, porque um acordo formal com Ronaldo Caiado é tratado pelos petistas como muito difícil, e a conversa, nesse caso, seria com Gilberto Kassab, presidente da sigla e vice na chapa de Caiado, de modo que uma neutralidade da legenda abriria espaço para Lula cultivar líderes locais do PSD, parte dos quais já apoia a reeleição no primeiro turno.

O cálculo que a Folha colocou em números é o motivo da pressa, porque, no conjunto dos eleitores de Cury, Caiado, Renan Santos e Romeu Zema, Flávio capta 43% das intenções num segundo turno, Lula fica com 30% e outros 26% vão para branco, nulo ou nenhum, enquanto a Datafolha citada pelo jornal punha Caiado em 4%, Cury em 6%, Renan em 3% e Zema em 2%, dentro de uma margem de dois pontos, e dois dias antes o Valor já tinha ampliado o mesmo movimento ao Centrão, com a avaliação petista de que PSD, União Brasil e Republicanos não declarariam apoio nacional a Flávio e deixariam diretórios e filiados livres, depois de Republicanos e União terem anunciado neutralidade no primeiro turno e com Edinho Silva, presidente do PT, em parte dessas conversas.

Do lado de quem o PT quer aproximar, a porta já tinha sido fechada em público, porque Cury disse à CNN, em 21 de setembro, antes do debate do Flow, que no segundo turno não apoiaria Lula, zero, e também não apoiaria Flávio Bolsonaro, e em 10 de setembro, num encontro com operadores da Faria Lima organizado pelo banco Genial, já tinha dito que não apoiaria Lula em hipótese alguma, nem 0,01%, sob o argumento de que o presidente precisa se aposentar e o modelo do PT também, ao passo que a Folha registrou que aliados do candidato do Avante avaliam que ele provavelmente ficará neutro, que é exatamente a posição que os articuladores de Lula passaram a tratar como mais realista do que um apoio formal.

O que a movimentação revela, a quatro dias da urna, é que o PT não está buscando o voto declarado de Caiado nem o palanque de Cury, e sim a ausência de um apoio nacional dessas legendas a Flávio, porque a própria conta publicada pela Folha mostra que o eleitor desses nomes já caminha mais para o senador do que para Lula, e a neutralidade que Kassab seria chamado a sustentar serviria para deixar o diretório local livre enquanto o candidato que o PT tenta alcançar já disse, duas vezes, que não sobe no palanque de nenhum dos dois.