As fronteiras que durante anos protegeram as rotas internacionais do PCC e do Comando Vermelho podem agora transformar-se em uma armadilha. Os Estados Unidos preparam uma fase terrestre de sua ofensiva contra organizações criminosas da América Latina, e o governo Trump afirma que grupos classificados por Washington como terroristas serão considerados alvos legítimos. Como PCC e CV receberam esse enquadramento em junho, suas estruturas passaram a entrar diretamente no alcance da nova estratégia.

O risco mais concreto não é uma invasão imediata do Brasil, mas a caça às redes que as facções mantêm no Paraguai, Bolívia e demais países aliados dos EUA: operadores, fornecedores, contas, empresas e rotas podem sofrer prisões, bloqueios financeiros, extradições, ações de inteligência e operações conjuntas. Colômbia e Equador já autorizaram cooperação militar, enquanto Argentina, Paraguai e outros governos aderiram à coalizão de segurança liderada por Washington. O Brasil de Lula permaneceu fora da iniciativa, aumentando a possibilidade de isolamento regional justamente quando o crime brasileiro se internacionalizou.

Uma ação militar unilateral dentro do território brasileiro continua sendo considerada improvável e, sem autorização de Brasília, produziria grave conflito de soberania e elevado custo jurídico e diplomático. Mas o cerco fora das fronteiras já seria suficiente para atingir o caixa e a logística das duas maiores facções do país. A pergunta que cresce é desconfortável: se os vizinhos aceitarem ajuda americana para enfrentar organizações que aterrorizam brasileiros, por que o governo Lula escolheria assistir de fora?