ONDA DE RECUPERAÇÕES EXPÕE CRISE DOS JUROS — OU HÁ MOVIMENTO PARA ENFRAQUECER LULA?
Habib’s entra em recuperação com R$ 265 milhões em dívidas e Justiça restabelece falência da Oi; dados econômicos ajudam a separar crise real de hipótese eleitoral
Grandes marcas voltaram às manchetes por recuperação judicial e falência justamente na abertura da campanha presidencial. O Grupo Gennius, controlador de Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, entrou em recuperação judicial com R$ 265,2 milhões em dívidas. Quase ao mesmo tempo, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro restabeleceu a falência da Oi, encerrando sua segunda recuperação. A sequência alimenta duas interpretações: o setor produtivo estaria sentindo o efeito acumulado da economia ou haveria empresas coordenando anúncios negativos para desgastar Lula em 2026.
O caso Habib’s
O Grupo Gennius protocolou o pedido em 24 de agosto, e o juiz Jomar Juarez Amorim, da 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, autorizou seu processamento no dia seguinte. A KPMG foi nomeada administradora judicial, e o conglomerado terá 60 dias para apresentar um plano aos credores. As lojas continuam funcionando.
A companhia atribui sua dificuldade a uma combinação de pandemia, mudança do consumo para plataformas de entrega e alta dos juros sobre o endividamento bancário. Esse último fator é mensurável: a Selic permanece em 14% ao ano, encarecendo capital de giro, renegociação de passivos e expansão. Para empresas com margem apertada, o custo financeiro pode transformar uma operação ainda rentável em fluxo de caixa insuficiente.
Por que a Oi é diferente
A Oi não entrou em crise agora. Sua primeira recuperação judicial começou em 2016, após anos de endividamento, problemas societários e tentativas frustradas de consolidação. A segunda recuperação foi aberta em 2023. A falência havia sido decretada em novembro de 2025, mas ficou suspensa após recursos de Itaú e Bradesco. Em 25 de agosto de 2026, a Primeira Câmara de Direito Privado do TJRJ restabeleceu a quebra diante da avaliação de inviabilidade operacional.
Portanto, a Oi serve como símbolo dramático, mas não pode ser atribuída exclusivamente à política econômica atual. O ambiente de juros altos piora o valor de ativos e dificulta financiamento, porém a deterioração da empresa atravessou diferentes governos e quase uma década.
Existe realmente uma onda?
Os números mostram que não se trata apenas de impressão causada pelas redes sociais. A Serasa Experian registrou 2.466 empresas em recuperação judicial em 2025, o maior nível de sua série histórica. Em abril de 2026, a Selic estava em 14,75%; depois caiu para 14%, mas permanece muito acima da inflação. Pelo menos 21 companhias de capital aberto estavam em recuperação judicial e outras quatro em recuperação extrajudicial.
O mecanismo econômico funciona em cadeia: gastos públicos persistentes e dúvidas sobre a trajetória da dívida elevam a percepção de risco; expectativas de inflação permanecem pressionadas; o Banco Central mantém juros altos; bancos encarecem e restringem crédito; famílias reduzem consumo e aumentam inadimplência; empresas perdem receita ao mesmo tempo em que refinanciam dívidas mais caras. Não é correto dizer que todo aumento da Selic é decretado diretamente pela “gastança”, pois o Banco Central considera inflação, atividade, câmbio e cenário externo. Mas a deterioração fiscal é um componente relevante que dificulta uma queda mais rápida e sustentável dos juros.
O próprio Tesouro elevou para até 53% a parcela prevista de títulos públicos atrelados à Selic e admite que a dívida federal pode alcançar R$ 10,3 trilhões no fim de 2026. Isso cria um círculo perigoso: juros altos aumentam o custo da dívida pública; a piora fiscal aumenta o prêmio exigido pelo mercado; e o crédito produtivo continua caro.
A hipótese de coordenação contra Lula
Em ambiente eleitoral, surge a teoria de que empresas poderiam antecipar ou coordenar pedidos para produzir sensação de colapso e enfraquecer o governo Lula. Em tese, agentes econômicos podem tentar influenciar eleições por investimentos, demissões, campanhas públicas ou divulgação seletiva de informações. Por isso, a hipótese não deve ser proibida de debate.
Até agora, contudo, não existe evidência de coordenação entre Oi, Grupo Gennius e outras empresas em recuperação. Não foram apresentadas mensagens comuns, financiadores compartilhados, orientação partidária ou calendário combinado. Os setores, credores, estruturas societárias e histórias financeiras são diferentes.
Além disso, recuperação judicial não é uma nota de protesto gratuita. Ela impõe auditoria, exposição de dívidas, perda de autonomia, negociação compulsória com credores, dano reputacional e risco real de falência. Administradores podem responder por fraude se simularem insolvência ou ocultarem patrimônio. Para uma empresa saudável, fabricar uma crise apenas para afetar uma eleição seria financeiramente irracional e juridicamente perigoso.
Há uma possibilidade menos conspiratória e mais plausível: companhias realmente pressionadas podem escolher o mesmo período porque os juros permaneceram elevados por tempo suficiente para esgotar caixa e renegociações. A proximidade com a eleição amplifica a repercussão política, mesmo sem acordo entre elas. Também é possível que opositores agrupem casos distintos em uma narrativa eleitoral, enquanto governistas tentem isolá-los como problemas antigos de gestão.
O impacto sobre a eleição
Mesmo sem conspiração, a onda pode prejudicar Lula. Eleitores não votam apenas com base no PIB agregado; percebem fechamento de lojas, desemprego, dívidas, crédito negado e marcas conhecidas em dificuldade. Se novas recuperações atingirem varejo, alimentos e serviços, a oposição poderá transformar casos empresariais em prova visual de que “a economia real” se afastou dos indicadores oficiais.
O governo, por sua vez, argumentará que a inflação recuou, que o Banco Central começou a reduzir a Selic e que muitos casos vêm de problemas anteriores. A disputa política estará em definir a causa: herança empresarial, transformação de mercado ou ambiente macroeconômico produzido pela política fiscal.
A conclusão mais responsável é que há evidência consistente de estresse econômico causado por crédito caro, consumo fragilizado e elevado endividamento, mas não há prova de uma ação empresarial coordenada para derrubar Lula. A teoria só ganhará substância se surgirem comunicações, vínculos financeiros ou decisões sincronizadas sem justificativa operacional. Até lá, o risco político para o governo nasce da própria economia — e não precisa de conspiração para existir.

