Já imaginou o acusado sentar na cadeira do juiz, levantar a mão e decidir o rito do próprio processo? Foi o que o Brasil viu nesta terça no Supremo. Alexandre de Moraes, o alvo das 52 mensagens com Daniel Vorcaro, votou. Quis o julgamento junto com o de André Mendonça, o adiamento para o dia 23 e a troca de relator. Gilmar Mendes puxou a questão de ordem. Flávio Dino e Cristiano Zanin acompanharam. Moraes fechou o quarto voto. Fachin e Mendonça ficaram no dois. Quatro a dois, com o investigado no placar. Nunes Marques se declarou impedido. Toffoli, suspeito. O único que não saiu da cadeira foi o homem cujo nome está no relatório da PF.

Em qualquer país que ainda leva o devido processo a sério, o juiz-parte se levanta e cala. O Código e o Regimento do próprio STF tratam o magistrado interessado como impedido. O Estadão lembrou a regra na véspera: Moraes é parte, não voto. A Corte fez o contrário. O ministro que relatou a condenação de Jair Bolsonaro, que mandou tornozeleira e prisão, agora desenha o calendário da apuração contra si. Junta o processo do colega, empurra a data, pede outro relator. Não é tesoura jurídica. É o réu escolhendo o tribunal, o dia e o juiz. Isso não é detalhe de regimento. É vergonha nacional que o mundo inteiro assiste pela TV Justiça.

Fachin abriu o dia falando em período difícil e em confronto pessoal. À tarde o confronto virou voto. Moraes perguntou da tribuna o que o presidente ia julgar, se não havia pedido da PGR nem da PF contra ele. Queria a simetria com Mendonça, marcado para o dia 23. A simetria que o Brasil não tem é outra: em lugar nenhum o investigado conta o próprio quórum. Enquanto a praça permanece gradeada e o celular do banqueiro espalha o filho de Fux e o filho de Kassio, o Supremo deixa o alvo decidir se o julgamento anda hoje ou some na semana que vem. A toga que julga a si mesma deixou de ser Corte. Virou clube.