Depois de transformar a tragédia Yanomami em uma das maiores acusações políticas contra o governo anterior, Lula passou a enfrentar uma pergunta inevitável: onde estão os resultados prometidos? Dados do Ministério da Saúde mostram que os óbitos caíram de 435 em 2023 para 347 em 2024, mas voltaram a subir para 356 em 2025 — aumento de aproximadamente 2,6% em um ano. A piora não apaga a redução acumulada desde o início da emergência, porém interrompe a trajetória de queda justamente quando a estrutura federal já deveria estar consolidada.

O contraste fica mais grave diante do Acórdão 1.209/2026 do TCU. Das 24 determinações e recomendações acompanhadas sobre saúde indígena, 16 foram consideradas não cumpridas ou não implementadas. A auditoria reconheceu medidas iniciais, mas classificou os avanços como insuficientes para assegurar melhorias sustentáveis e apontou problemas estruturais, operacionais e de governança. Houve avanços concretos contra desnutrição, malária e garimpo, inclusive nova queda de mortes no primeiro semestre de 2026; ainda assim, propaganda não substitui medicamento, equipe completa, transparência nem presença permanente do Estado.

Enquanto Brasília celebra números selecionados, a Amazônia continua emitindo sinais de perigo. Em um caso separado, o MPF abriu inquérito sobre relatos de grupos armados estrangeiros no extremo norte do Amazonas e acionou Forças Armadas e Polícia Federal diante do medo de comunidades indígenas e ribeirinhas. Não há prova de ligação desse episódio com os óbitos Yanomami. Mas o conjunto expõe a contradição: um governo que usa a causa indígena como símbolo internacional precisa responder não apenas com discursos e culpados do passado, mas com fronteiras protegidas, dados transparentes e vidas efetivamente preservadas.