Duas frentes de desgaste atingiram o governo federal nos últimos dias. De um lado, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, classificou o presidente da Argentina, Javier Milei, de “palhaço” em entrevista de rádio. De outro, uma investigação jornalística apontou o uso de um convênio de R$ 35 milhões da estatal PortosRio com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para financiar uma rede de cabos eleitorais e aliados políticos no estado do Rio.

Os episódios ocorrem em meio à polarização eleitoral e à presença de Milei na convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro.

DURIGAN REAGE A CRÍTICAS DE MILEI E CHAMA PRESIDENTE ARGENTINO DE “PALHAÇO”

Na segunda-feira (27), em entrevista à Rádio Jornal, de Pernambuco, o ministro da Fazenda afirmou que o “palhaço do presidente da Argentina” criticou o Brasil sem considerar os indicadores do próprio país. Durigan destacou que o risco-país, a dívida pública e a inflação da Argentina são mais elevados, enquanto o Brasil registra desemprego e inflação em patamares baixos, além de recordes na balança comercial.

A declaração foi resposta às falas de Milei durante a convenção do PL, no sábado (25), em São Paulo. O argentino criticou a política fiscal do governo Lula, disse que o Brasil caminha para uma crise de dívida e usou termos ofensivos contra o presidente brasileiro e o ministro Alexandre de Moraes. Após a entrevista, Durigan afirmou à imprensa que falou de forma autônoma, mas considerou necessário reagir às críticas direcionadas à sua pasta.

O episódio elevou o tom diplomático entre os dois países. O Itamaraty já havia convocado o embaixador brasileiro em Buenos Aires para consultas após as ofensas de Milei.

CONTRATO DE R$ 35 MILHÕES DA PORTOSRIO SOB SUSPEITA DE USO ELEITORAL

Na mesma data, o UOL publicou reportagem exclusiva mostrando que a PortosRio (antiga Companhia Docas do Rio de Janeiro) firmou convênio de R$ 35 milhões com a UFRJ, oficialmente destinado a estudos científicos e ações de integração entre portos e comunidades. Segundo a apuração, parte dos recursos foi usada para pagar bolsas a mais de 300 pessoas com vínculos políticos, incluindo pré-candidatos, assessores, parentes e militantes ligados ao grupo do ex-prefeito de Belford Roxo, Waguinho Carneiro, e da deputada federal Daniela do Waguinho (Republicanos), aliados de Lula desde 2022.

Documentos e folhas de pagamento obtidos pela reportagem indicam valores de bolsas que chegaram a R$ 150 mil, enquanto os beneficiários organizavam eventos de campanha e ações políticas na Baixada Fluminense. O acordo prevê transferências em parcelas, com a última prevista para setembro, mês anterior às eleições.

A PortosRio respondeu que não contratou individualmente os bolsistas, que o convênio tem natureza técnica e científica e que está comprometida com a correta e legal aplicação dos recursos públicos. A estatal afirmou que não mantém cadastro de filiação partidária e não valida a metodologia da reportagem. A UFRJ abriu sindicância, suspendeu pagamentos e notificou a fundação responsável pela gestão administrativa do convênio.

CENÁRIO DE DESGASTE E REPERCUSSÃO POLÍTICA

Os dois episódios alimentam o debate sobre a condução das relações internacionais do governo e o uso de estruturas estatais em ano eleitoral. Enquanto o ministro da Fazenda adota tom agressivo contra um chefe de Estado vizinho, a estatal federal enfrenta questionamentos sobre a destinação de recursos públicos a redes políticas regionais. A oposição e pré-candidatos da direita têm explorado os casos como exemplos de descontrole e politicagem.

A PortosRio é uma das estatais sob gestão federal e atua na administração de portos no Rio de Janeiro. O caso reforça o escrutínio sobre contratos e convênios em empresas públicas às vésperas da disputa presidencial.