Um trecho de conversa em que uma militante de esquerda afirma que “o Hamas é um partido político” e justifica a ofensiva de 7 de outubro de 2023 como “operação política de enfrentamento ao Estado genocida de Israel” viralizou nas redes sociais nesta terça-feira (28). No vídeo, a mulher, que se apresenta como socialista, de leitura do feminismo marxista e apoiadora de Lula, tenta distanciar-se da defesa explícita do grupo, mas termina relativizando seus atos e rejeitando a caracterização de terrorismo.

A fala ocorre em um contexto de questionamento sobre a coerência da esquerda e de setores feministas que criticam Israel enquanto suavizam ou justificam o Hamas. A interlocutora insiste que “não defende o Hamas”, mas descreve o ataque como resposta legítima e afirma que “Hamas não faz isso” ao ser confrontada sobre atrocidades.

HAMAS TEM BRAÇO POLÍTICO, MAS É DESIGNADO TERRORISTA POR DEZENAS DE PAÍSES

O Hamas (Movimento de Resistência Islâmica) possui, de fato, uma estrutura política e outra militar (as Brigadas Al-Qassam). O grupo venceu as eleições legislativas palestinas de 2006 e controla a Faixa de Gaza desde 2007. Sua carta original e documentos posteriores defendem a destruição de Israel e a implantação de um Estado islâmico.

Apesar da existência da ala política, o Hamas é oficialmente classificado como organização terrorista pelos Estados Unidos, União Europeia, Reino Unido, Canadá, Austrália, Japão, Israel e outros países. O Brasil não o inclui em lista própria de organizações terroristas, alinhando-se às designações do Conselho de Segurança da ONU, que não contempla o grupo nessa categoria específica. O governo brasileiro, sob Lula, tem mantido essa posição mesmo após o ataque de 7 de outubro.

O ATAQUE DE 7 DE OUTUBRO E AS CONTRADIÇÕES DO DISCURSO

Em 7 de outubro de 2023, o Hamas e aliados invadiram território israelense, mataram cerca de 1.200 pessoas — a maioria civis — e sequestraram mais de 250 reféns. Relatórios de organizações internacionais e investigações documentaram assassinatos de famílias, estupros e violência sexual sistemática contra mulheres e meninas. O grupo continua a manter reféns e a usar a população de Gaza como escudo humano, segundo avaliações de governos e de organismos de direitos humanos.

No vídeo, a militante tenta separar “palestinos” de “Hamas” e afirma que o grupo conduziu uma “operação política”. A interlocutora a confronta sobre a coerência de um discurso feminista que condena agressões a mulheres em outros contextos, mas relativiza as práticas do Hamas em Gaza e no ataque a Israel. A resposta da militante evita o tema e insiste na narrativa de “colonização” e “apartheid”.

SETOR DA ESQUERDA BRASILEIRA E A RELATIVIZAÇÃO DO TERRORISMO

Desde o início da guerra, setores da esquerda brasileira — incluindo parlamentares e militantes — têm evitado chamar o Hamas de terrorista ou justificado suas ações como “resistência”. O vídeo amplifica esse padrão: a tentativa de transformar um grupo com histórico de atentados a civis, uso de escudos humanos e opressão de mulheres sob regras islâmicas rígidas em mera “força política”.

A viralização ocorre em meio a um cenário eleitoral em que o tema Oriente Médio continua polarizando. Enquanto a direita critica a equidistância ou a empatia seletiva da esquerda, o discurso da militante ilustra a dificuldade de parte desse campo em condenar, de forma clara e inequívoca, atos de terrorismo quando o alvo é Israel.