LULA ISOLADO: MILEI ATACA EM SOLO BRASILEIRO, ITAMARATY REAGE E PARAGUAI SE REVOLTA
Presidente argentino chama Lula de “presidiário” e “ladrão” e Moraes de “lixo careca” durante convenção do PL. Governo convoca embaixadores. Fala sobre Guerra do Paraguai reabre ferida histórica. América do Sul vira à direita enquanto Brasil perde protagonismo.
No sábado (25 de julho de 2026), o presidente argentino Javier Milei participou da convenção nacional do PL em São Paulo, que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Em território brasileiro, Milei atacou diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, chamando-o de “presidiário” e “ladrão”, classificou o governo brasileiro de “socialistas ladrões”, falou em “risco Lula” e ofendeu o ministro Alexandre de Moraes, do STF, como “lixo careca” por ter barrado sua visita a Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar. O Itamaraty respondeu no dia seguinte com um dos gestos diplomáticos mais duros: convocou o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, para transmitir “repúdio” e cobrar explicações, e chamou de volta a Brasília o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas. Ministros do governo reagiram com termos pejorativos. Lula, questionado no dia 27, ironizou: “Quem é esse cara?”. Paralelamente, no dia 24, durante visita à Avibras em Jacareí (SP), Lula defendeu o reequipamento das Forças Armadas citando a Guerra do Paraguai e afirmou que “um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil”. A fala gerou reação imediata em Assunção, com parlamentares acusando o presidente brasileiro de distorcer a história e tratar com leveza o que consideram o maior genocídio do continente.
MILEI VEM AO BRASIL, APOIA FLÁVIO E DESFERE OFENSAS SEM PRECEDENTES
Milei chegou a São Paulo exclusivamente para o evento do PL. Antes da convenção, foi recebido pelo governador Tarcísio de Freitas no Palácio dos Bandeirantes, onde recebeu a Ordem do Ipiranga. No Pacaembu, discursou longamente ao lado de Flávio Bolsonaro, exaltou a “onda azul” na América do Sul e afirmou que só o senador seria capaz de “parar Lula” e afastar o Brasil do socialismo. As ofensas a Lula e a Moraes ocorreram em solo brasileiro, em evento de oposição, o que o próprio Itamaraty classificou como sem precedentes: “Não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao Chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao Poder Judiciário, e ao povo brasileiro”.
A Casa Rosada não sinalizou pedido de desculpas. A Argentina classificou como interferência a visita que Lula fez a Cristina Kirchner, em prisão domiciliar, em 2025.
ITAMARATY ADOTA GESTO DIPLOMÁTICO PESADO E MINISTROS REAGEM COM ADJETIVOS
O chanceler Mauro Vieira convocou o embaixador argentino e determinou o retorno de Julio Bitelli. O chamado a consultas é gesto reservado a crises graves. Ministros do governo Lula reagiram em tom pejorativo: Dario Durigan chamou Milei de “palhaço”; Guilherme Boulos usou a expressão “caricatura patética”. O Itamaraty, segundo reportagens, não gostou do tom usado pelos ministros e preferiu a linguagem formal de repúdio. Lula optou pelo ninguneo na segunda-feira (27), ao chegar ao Itamaraty para receber o presidente da Coreia do Sul.
FALA SOBRE A GUERRA DO PARAGUAI REABRE FERIDA HISTÓRICA
No dia anterior às ofensas de Milei, Lula visitou a Avibras, em Jacareí, e defendeu investimentos em defesa. Afirmou: “Nós gostamos de paz. Mas um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá. Ao mesmo tempo invadiu o Uruguai. Ao mesmo tempo invadiu a Argentina. E essa guerra que parecia que não era nada, durou cinco anos.”
A reação em Assunção foi imediata. O presidente da Câmara dos Deputados do Paraguai, Raúl Latorre, acusou Lula de falar com “demasiada leveza” sobre “a maior tragédia da nossa história, o maior genocídio do nosso continente”. Parlamentares paraguaios lembraram que, na narrativa oficial do país, a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870) teve origem na intervenção militar brasileira no Uruguai e resultou na devastação demográfica do Paraguai, com perdas estimadas entre 60% e 90% da população masculina adulta. Historiadores e autoridades paraguaias contestam a versão de “invasão gratuita” apresentada por Lula.
AMÉRICA DO SUL VIRA À DIREITA ENQUANTO BRASIL PERDE PROTAGONISMO
O episódio ocorre em meio a uma clara mudança de eixo na região. Argentina (Milei), Chile (José Antonio Kast), Bolívia (Rodrigo Paz), Paraguai (Santiago Peña), Equador e, mais recentemente, Peru e Colômbia estão sob governos de direita ou centro-direita. Brasil e Uruguai restam como os principais governos de esquerda. Análises apontam que Lula perdeu a capacidade de liderar o Mercosul e a região. O próprio presidente, no passado, acusava o governo Bolsonaro de isolar o Brasil. Agora o diagnóstico se inverte: enquanto prega “integração regional”, o governo enfrenta embaixadores sendo chamados de volta e vizinhos se afastando.
O comércio bilateral Brasil-Argentina manteve-se robusto em 2025, com corrente próxima de US$ 31 bilhões — recorde em 13 anos — e déficit argentino em torno de US$ 5,2 bilhões. A parceria comercial é estrutural, mas a relação política está no pior momento em décadas.
O CUSTO POLÍTICO DO ISOLAMENTO ÀS VÉSPERAS DAS ELEIÇÕES
O apoio explícito de Milei a Flávio Bolsonaro e a exposição pública das ofensas reforçam a narrativa de que o Brasil está “fora do jogo” enquanto a direita avança no continente. O “risco Lula” citado por Milei e a reabertura da ferida com o Paraguai somam-se ao desgaste diplomático. A oposição brasileira e o bolsonarismo celebraram o embaraço. A imprensa internacional (BBC, veículos argentinos e paraguaios) destacou a crise como a mais grave em décadas entre os dois países. O governo brasileiro, por sua vez, tenta minimizar o episódio com ironia e gestos formais, enquanto a América do Sul realinha-se à direita.

