Até a Folha admite: ex-assessor de Fauci confessou esquema para esconder documentos da Covid
David Morens burlou regras de transparência sobre pesquisas com coronavírus; caso expõe perguntas que a imprensa tratou como inconvenientes
O silêncio começou a rachar — e desta vez foi a própria Folha de S.Paulo que teve de noticiar. David Morens, ex-assessor sênior de Anthony Fauci no instituto que comandou a resposta americana à Covid, declarou-se culpado de conspirar para fraudar os Estados Unidos: usou e-mails pessoais para escapar da lei de acesso à informação e ocultar comunicações sobre financiamento público de pesquisas com coronavírus. Ele pode receber até cinco anos de prisão.
Durante anos, Jair Bolsonaro foi atacado por questionar a falta de transparência internacional, a influência política sobre decisões sanitárias e as versões fechadas sobre a origem da pandemia. Agora, uma investigação do Congresso americano revelou e-mails apagados, canais paralelos e tentativas de proteger informações ligadas à EcoHealth Alliance e a pesquisas realizadas com colaboradores em Wuhan. Isso não prova todas as teses levantadas na pandemia, mas confirma algo essencial que a imprensa brasileira preferiu ridicularizar: havia documentos sendo escondidos e perguntas legítimas que precisavam ser investigadas.
Fauci não foi acusado no processo de Morens e a origem do vírus continua sem conclusão consensual entre as agências americanas. Mas esse limite não apaga o escândalo: um integrante de alto escalão do sistema de saúde confessou que trabalhou para impedir o público de conhecer registros financiados pelos próprios contribuintes. Quando até a Folha reconhece o fato, fica impossível sustentar que toda desconfiança era “negacionismo”. A pergunta que permanece é quanto ainda não veio à tona — e por que parte da imprensa demorou tanto para olhar.

