Na sabatina da TV Globo na noite de 27 de agosto de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, foi questionado sobre Roberta Luchsinger, empresária apontada como amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e citada em inquérito da Polícia Federal. A resposta foi peremptória: ele não a conhecia, nunca a tinha visto e ela nunca esteve próxima dele.

Poucas horas depois, fotos e publicações antigas da própria Luchsinger voltaram a circular. Checagens do g1, do UOL Confere e reportagens de O Globo, Estadão, CNN, Gazeta do Povo e Folha registraram o descompasso entre a frase dita ao vivo e os registros já disponíveis nas redes da empresária. A campanha do petista passou o dia seguinte tentando conter o desgaste.

O que está comprovado, neste momento, é a contradição entre a declaração e as imagens públicas. O que não está comprovado — e não deve ser tratado como sentença — é crime, tráfico de influência ou qualquer condenação contra Lula, Lulinha ou Roberta Luchsinger.

O QUE LULA DISSE NO AR

A entrevista foi conduzida por Renata Vasconcellos e César Tralli, nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, na série de sabatinas com presidenciáveis exibida após o Jornal Nacional.

Perguntado sobre a lobista e sobre mensagens obtidas pela Polícia Federal, Lula respondeu:

“Eu não conheço essa moça, nunca vi essa moça na minha vida, nunca conversei com essa moça. Ela nunca esteve próxima de mim.”

No mesmo bloco, o presidente chamou a interlocutora de “pilantra”, afirmou que interceptar telefone “não justifica nada”, disse que até então não havia prova de uso de dinheiro público nem de conversa do filho com ministro, e deslocou o foco para o caso do Banco Master, que classificou como “mais grave” e “silenciado”.

Também disse que o filho “vai ser investigado como qualquer brasileiro” e que, se houver ilícito comprovado, terá de responder.

O QUE AS FOTOS E AS CHECAGENS MOSTRAM

O Fato ou Fake do g1 classificou a declaração como #FAKE. O UOL Confere também a considerou falsa. O critério das checagens não foi condenar ninguém: foi confrontar a frase “nunca vi essa moça na minha vida” com registros publicados pela própria Roberta Luchsinger.

Entre os pontos documentados pela imprensa:

— Há fotos e ao menos um vídeo no Instagram da empresária em que ela aparece ao lado de Lula.

— Um vídeo de 20 de julho de 2022 reúne imagens com Lula, Janja, Fernando Haddad, Márcio França e Geraldo Alckmin. A legenda falava em amizade: “Quem tem amigos, tem tudo.”

— Em 27 de outubro de 2022, ela publicou foto com Lula e mensagem de aniversário ao então candidato.

— Em 27 de outubro de 2023, voltou a homenagear o presidente pelo aniversário, chamando-o de “o melhor presidente que esse país já teve”.

— Em agosto de 2023, publicou imagem com Lula e Daniela Teixeira, depois indicada ao STJ.

Veículos falam em pelo menos uma dezena de registros — alguns levantamentos citam 12, 15 ou 16 publicações, incluindo republicações no estilo “TBT”. Parte das fotos é de eventos públicos da campanha de 2022 e de encontros anteriores à posse de 1º de janeiro de 2023. Há registro atribuído a dezembro de 2021, ainda com máscara.

A oposição tratou o episódio como mentira explícita. Flávio Bolsonaro (PL) publicou fotos e escreveu que “mentir é tudo que ele sabe”. Outros nomes da direita repercutiram o mesmo material.

QUEM É ROBERTA LUCHSINGER E O QUE A PF APURA

Roberta Moreira Luchsinger é empresária e aparece no noticiário como amiga próxima de Lulinha. Segundo a Polícia Federal, ela figura no inquérito sobre descontos ilegais em aposentadorias e pensões do INSS.

Reportagens baseadas na investigação apontam que a PF identificou, entre outros elementos, repasses ligados ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, a empresa associada a Roberta, e uma minuta de contrato para venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde. Também há menção a interlocução com Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula.

Em mensagens citadas pela imprensa, a empresária relata ter chegado a Brasília e recebe de Lulinha um “vai que é sua”. Há ainda alegação, atribuída a ela em diálogo obtido pela PF, de que Lula teria dito para “escolher onde queria ficar” no governo. Lula, na Globo, ironizou a versão e negou qualquer oferta de cargo.

Tudo isso, até aqui, é objeto de apuração. Não há, nas fontes públicas consultadas, condenação transitada em julgado contra Lula, Lulinha ou Roberta Luchsinger por tráfico de influência, fraude previdenciária ou uso ilegal da estrutura federal. Investigação não é sentença.

O CONTRADITÓRIO DA CAMPANHA E DA DEFESA

A campanha de Lula afirmou, no dia 28, que os registros “não significam relação pessoal, profissional ou política”. O argumento: o presidente é figura pública, posa com dezenas de pessoas em atos e campanhas, e nunca recebeu Roberta em reunião ou audiência nem tratou contrato com ela.

A linha de contenção, segundo O Globo, foi separar foto de evento da existência de interlocução formal. Aliados admitiram, off the record, que a frase “nunca vi” foi uma derrapada.

A CNN Brasil registrou que interlocutores do presidente dizem que uma das fotos já havia sido mostrada a Lula em agosto, num encontro com petistas paulistas no Alvorada. Se essa informação se confirmar, a declaração ao vivo fica ainda mais difícil de sustentar como mero esquecimento. Enquanto não houver documento público dessa advertência, ela permanece como relato de fontes, não como prova autônoma.

A defesa de Roberta, em episódio anterior da operação do INSS, afirmou que ela “jamais teve qualquer relação com descontos indevidos” e que teria sido procurada para serviços de regulação no setor de canabidiol. Esse é o contraditório que precisa constar.

O QUE A GLOBO MOSTROU — E O QUE AS REDES COMPLETARAM

A Globo perguntou. Lula negou. A emissora não transformou a sabatina num desfile das fotos da empresária. O material visual que explodiu depois saiu das redes da própria Luchsinger, de posts da oposição e de checagens publicadas na sequência.

É lícito criticar o alcance da pergunta e o tempo dedicado ao tema. Não é lícito fingir que a declaração presidencial sobreviveu intacta ao arquivo público. Foto em evento não prova contrato. Mas uma sequência de imagens, legendas afetuosas e presença em atos com Lula, Janja e aliados torna insustentável a fórmula “nunca vi essa moça na minha vida”.

Na avaliação editorial desta reportagem, o episódio expõe um padrão antigo da política brasileira: quando a pergunta aperta, o fato vira “ilação”, o interlocutor vira “pilantra” e o gravíssimo passa a ser sempre o caso do adversário. O eleitor não precisa de adjetivo. Precisa da frase, da foto e da data.

O QUE ESTÁ EM JOGO NA CAMPANHA

A sabatina da Globo era a estreia de Lula na série televisiva do primeiro turno. O 1º turno está marcado para 4 de outubro de 2026. Flávio Bolsonaro foi o entrevistado do dia seguinte.

O desgaste não está só na foto. Está no contraste entre o rigor com que o governo e o sistema de justiça trataram adversários e a naturalidade com que o presidente despacha, no horário nobre, uma negativa que o arquivo desmente em minutos.

Liberdade de expressão inclui o direito de o presidente se defender. Inclui também o direito de a imprensa e o eleitor cobrarem coerência. Devido processo legal vale para Lulinha, para Roberta e para qualquer investigado. Vale, do mesmo modo, a regra elementar da vida pública: quem pede voto não pode tratar o óbvio como se não existisse.

O QUE FALTA ESCLARECER

Falta a conclusão dos inquéritos. Falta saber, com peça pública, se houve ou não interlocução formal no Palácio, no Ministério da Saúde ou no entorno do gabinete. Falta a versão completa de Lulinha em juízo, se for o caso. Falta distinguir encontro social de tráfico de influência — distinção que só o processo, e não o palanque, pode fazer com segurança jurídica.

O que já não falta é o registro da frase e o registro das fotos. Uma coisa é o presidente dizer que nunca tratou negócio com a empresária. Outra, bem diferente, é dizer que nunca a viu. A segunda afirmação, diante do material publicado pela própria Roberta Luchsinger e confirmado por veículos de linhas editoriais distintas, não se sustenta como descrição dos fatos.