O ato aconteceu e foi o próprio governo que o registrou, porque a página oficial do portal gov.br, publicada em 1º de novembro de 2022, às 15h31, com o título “Presidente consagra Brasil a Nossa Senhora Aparecida”, diz com todas as letras que no dia 24 de outubro, às 20h, o presidente Jair Messias Bolsonaro realizou, na Capela do Palácio da Alvorada, o Ato de Consagração do Brasil a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, e transcreve a oração em que ele fala como chefe da nação e renova o pedido atribuído à princesa Isabel, com a frase “se o Brasil for vosso, e por este ato assim o consagro”, texto que na época também saiu no Instagram do presidente e foi noticiado pela ACI Digital em 26 de outubro de 2022 como iniciativa levada ao Alvorada pelo Centro Dom Bosco.

O endereço oficial continua existindo, e é este: https://www.gov.br/pt-br/noticias/financas-impostos-e-gestao-publica/2022/10/presidente-consagra-brasil-a-nossa-senhora-aparecida , mas nesta quarta (30) ele não abre para o público, porque o portal redireciona o leitor para uma tela de login do gov.br, de conteúdo restrito, enquanto o Internet Archive guarda a mesma página aberta, com status público, no instante de 22 de fevereiro de 2025, neste link: http://web.archive.org/web/20250222001546/https://www.gov.br/pt-br/noticias/financas-impostos-e-gestao-publica/2022/10/presidente-consagra-brasil-a-nossa-senhora-aparecida , o que permite cravar duas coisas sem depender de recorte de rede: a notícia oficial existiu, estava no ar pelo menos até aquela data do governo Lula, e hoje o cidadão que digita o endereço oficial não lê o ato, lê um pedido de senha.

O Centro Dom Bosco, que entregou o pergaminho em 2022, cobrou explicação em 25 de setembro de 2026, no X, perguntando por que a consagração sumiu do gov.br e lembrando que tornar o ato público era condição que o próprio presidente cumpriu ao publicar o texto, e até esta quarta não apareceu nota do Planalto dizendo quem restringiu a página, em que data e por qual motivo, de modo que o que se confirma não é um decreto, porque não houve ato normativo transformando a oração em lei, e sim o sumiço do registro oficial de uma cerimônia que a Presidência da República descreveu, com data, hora e lugar, no seu próprio portal.

Na semana em que o Tribunal Superior Eleitoral trata como notoriamente inverídica a frase de que Flávio Bolsonaro quer tirar de Aparecida o título de padroeira, o arquivo que o governo de Jair Bolsonaro deixou no ar é o contrário disso, uma consagração lida na capela da residência oficial e publicada pelo Estado, e o que o governo seguinte fez com esse registro foi tirá-lo do alcance de quem não tem senha, sem explicar, enquanto a cópia de fevereiro de 2025 continua provando que a página não é lenda.