Fux dá dez dias ao governo e reabre mistério do espião russo
Cobrança ao Ministério da Justiça expõe um caso que envolve identidade brasileira falsa, o serviço secreto russo e uma disputa internacional pela entrega do preso
Luiz Fux abriu uma contagem regressiva dentro do governo: o Ministério da Justiça terá dez dias para explicar por que um homem apontado como agente secreto russo continua no Brasil, apesar de o processo de entrega à Rússia ter transitado em julgado em abril de 2023. A ordem, expedida em 20 de agosto, não determina a soltura nem a extradição imediata de Sergey Vladimirovich Cherkasov. Ela exige informações sobre uma demora que atravessou anos e agora coloca o Executivo diante de uma pergunta delicada: o que ainda impede o desfecho de um dos casos de espionagem mais intrigantes já descobertos em território brasileiro?
O homem no centro da história viveu como brasileiro sob o nome de Victor Muller Ferreira. Segundo investigações internacionais, ele construiu essa identidade falsa durante anos, estudou nos Estados Unidos e tentou ingressar no Tribunal Penal Internacional, em Haia, quando autoridades holandesas identificaram indícios de que seria um agente “ilegal” ligado à inteligência militar russa. Impedido de entrar na Holanda em 2022, retornou ao Brasil e foi preso. Aqui, foi condenado por falsidade ideológica — pena inicialmente fixada em 15 anos e posteriormente reduzida para cinco. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos também o acusou de atuar como agente russo, fraudar vistos e obter informações de interesse de Moscou. Cherkasov nega ser espião.
A encruzilhada é jurídica e geopolítica. A Rússia pediu sua extradição por uma acusação de tráfico de drogas, enquanto os Estados Unidos querem processá-lo por atividades de inteligência e fraudes. O STF autorizou a entrega à Rússia, mas o cumprimento ficou condicionado às pendências penais e investigativas no Brasil. Em julho, o Ministério da Justiça decretou sua expulsão e proibiu o retorno por 30 anos, medida administrativa que não substitui automaticamente a extradição nem elimina as decisões judiciais pendentes. Fux agiu agora após um pedido da defesa e diante do longo intervalo desde o encerramento formal do processo no Supremo. A resposta do governo poderá esclarecer se o atraso decorre apenas da pena brasileira ou se o Brasil permanece preso a uma disputa silenciosa entre Washington e Moscou.

