A Folha publicou nesta terça (29), em reportagem de Patrícia Campos Mello, que Marcos Degaut, o homem de política externa de Eduardo Bolsonaro, vem descrevendo em reuniões fechadas com diplomatas o que ele chama de “nosso projeto” caso Flávio vença: o “Marco Rubio overhaul”, a reforma com que o secretário de Estado de Donald Trump reorganizou o Departamento de Estado, aplicada às carreiras do Itamaraty, e a Folha ouviu cinco pessoas que estiveram nessas conversas, nas quais Degaut disse que o diplomata passaria a ser medido por região e por tema, com meta de exportação, de investimento e de inserção comercial, num sistema de promoção refeito de alto a baixo, porque o atual, a própria reportagem registra, é fonte de insatisfação disseminada dentro da casa.

O que Rubio fez em Washington, ao anunciar o novo organograma em abril de 2025, foi exatamente essa troca de régua, ao determinar que as funções fossem consolidadas por região, que os escritórios redundantes saíssem e que os programas sem base legal e desalinhados do interesse nacional deixassem de existir, o que na prática enxugou a máquina, fechou o escritório de diversidade, recolheu a burocracia de direitos humanos a uma estrutura menor que manteve a liberdade religiosa e extinguiu o centro que ele acusava de financiar censura de americanos, de modo que a embaixada deixou de ser avaliada pelo volume de relatórios ideológicos e passou a ser cobrada pelo que o país ganha.

Os pontos que o círculo de Flávio quer trazer são os que cabem num país que vende alimento, minério, energia e manufatura, porque Degaut falou em metas quantitativas para promoção, em cargos abertos a gente de fora do ministério e numa política externa concentrada em 35 países prioritários, o G35, incluindo as nações do G20, com superpostos de mais orçamento e mais pessoal no lugar da embaixada espalhada e vazia, e citou, na África, África do Sul e Egito como sedes capazes de cobrir o continente, lógica que ele e Eduardo Bolsonaro também assinaram num artigo longo na Gazeta do Povo neste mês, e que inverte o hábito de manter bandeira em toda capital sem gente bastante para fechar um contrato.

O ganho, para quem produz e exporta, é que o diplomata passa a subir na carreira se o posto vende, atrai capital e senta na mesa dos países que compram, em vez de subir porque esperou a vez numa fila que a própria Folha descreve como insatisfação geral, e a abertura de cargos a quem vem do comércio, da energia e do agronegócio tira da casta do Rio Branco o monopólio de falar pelo Brasil lá fora, que é a parte útil da reforma de Trump: menos escritório repetido, mais interesse nacional, e uma embaixada julgada pelo que entra no país, não pelo comunicado que sai dela.