A Gazeta do Povo publicou na terça (29), em reportagem de Leonardo Desideri, o levantamento da Stride, agência contratada pela campanha de Flávio Bolsonaro, sobre a mentira de que ele pretenderia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil, e o relatório reúne 4.952 registros no Instagram, no Facebook, no TikTok, no X e no YouTube, nos quais uma análise computacional achou 110 grupos de textos normalizados idênticos, material que o próprio documento trata como ponto de partida para investigar a repetição, e que ganha outro peso quando a convocação deixa de ser implícita e vira ordem publicada, como às 7h02 de 25 de setembro, quando a conta lazarorosa25 anunciou no X as “tags do dia”: “ninguém toca na padroeira”, “protejam a mãe do Brasil” e “defendam Aparecida”, expressões que nas horas seguintes reapareceram em outras páginas, entre elas a petistasdecoracao, com eutocomlula e roddolfopt como colaboradores.

A mesma turma já tinha ensaiado o método em 11 de setembro, na campanha “Flávio é Vorcaro”, quando uma publicação das 12h43 convocava a militância a subir tags e o slogan voltou às 13h20 na conta jptsaopaulo e às 13h37 na lazarorosa, e ao cruzar aquele episódio com sete publicações da padroeira a Stride encontrou nove perfis nos dois conjuntos, entre eles barbiepetistadobrasil, brasilforadacaverna, esquerdaunificada, eutocomlula, lazarorosa, lazarorosa25 e petistasdecoracao, repetição que a Gazeta foi checar por conta própria no X, reunindo 53 posts de 42 contas em quatro ataques entre abril e setembro: o boato de que Flávio acabaria com o Pix, em 2 de abril, a cobrança pela quebra do sigilo bancário, em 9 de setembro, a campanha das bets, em 20 de setembro, e Aparecida, em 24 de setembro.

No caso do Pix, vinte publicações diferentes saíram em menos de quarenta minutos, e nos quatro episódios há pares de textos quase idênticos, de contas diferentes, separados por menos de um minuto, com lazarorosa25 presente nas quatro ondas e abrindo duas delas, CostaJr2023 em três e abrindo tanto Aparecida quanto o sigilo, padrão que o Instituto DX, em levantamento citado pelo Poder360, mediu do outro lado do volume: 977,6 mil publicações e 8,5 milhões de interações desde a noite de 24 de setembro, o terceiro maior assunto político do ano na amostra, com 80% da produção do eixo “tirar o título” vinda de perfis classificados como de esquerda, depois que a jornalista Maria Cristina Fernandes tocou no tema no Em Pauta, da GloboNews.

O projeto que essa engrenagem colou em Flávio é o PL 2.623/2007, apresentado em dezembro daquele ano pelo então deputado Professor Victório Galli, do PMDB de Mato Grosso, e arquivado em 2008, quando o hoje candidato ao Planalto não era autor, não era relator e não estava na Presidência de coisa nenhuma, e o Tribunal Superior Eleitoral, por André Mendonça, já tratou como notoriamente inverídica a afirmação de que ele pretende acabar com o título, mantendo a ordem de retirada dos posts que apresentam isso como fato, enquanto a lista de tags da manhã de 25 de setembro mostra que a mentira não esperou o eleitor descobrir o projeto: a frase já saiu pronta, da mesma conta que tinha aberto o Pix em abril.