As suspeitas envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, atravessaram o Atlântico e chegaram formalmente ao Ministério Público da Espanha. O jornalista Oswaldo Eustáquio e os advogados Fábio Pagnozzi e Daniel Lucas Romero apresentaram uma comunicação à Fiscalía Anticorrupción espanhola para que sejam examinadas as atividades da Synapta SL, empresa aberta pelo filho do presidente Lula em Madri.

O documento foi assinado em 21 de agosto e protocolado em 26 de agosto. Daniel Lucas Romero, advogado espanhol que representou Eustáquio no processo de extradição rejeitado pela Justiça espanhola, aparece como responsável pelo protocolo. O escritório de Pagnozzi, que também atua na defesa de Carla Zambelli, auxiliou na elaboração.

O que os denunciantes querem investigar

A petição solicita que as autoridades espanholas verifiquem a movimentação financeira da Synapta, sua estrutura econômica, os endereços declarados, o objeto social efetivamente exercido e a origem dos recursos administrados pela companhia. Os autores levantam a hipótese de que a empresa possa ter sido utilizada para ocultar, canalizar ou gerir ativos relacionados a fatos atualmente investigados no Brasil.

Essa hipótese ainda precisa ser demonstrada. Segundo a reportagem que revelou o documento, a comunicação não atribui diretamente a Lulinha a prática de um crime específico. Ela pede a abertura de diligências para que o Ministério Público espanhol determine se existe fundamento para uma investigação criminal.

Como funciona a empresa de Lulinha em Madri

A Synapta SL declarou o início de suas atividades em 13 de janeiro de 2026 e foi registrada em 6 de fevereiro. Lulinha aparece como único sócio e administrador da sociedade limitada unipessoal, com capital inicial de 3 mil euros. O objeto declarado envolve consultoria técnica e informática, planejamento e desenvolvimento de sistemas e integração de tecnologias de comunicação.

Os denunciantes chamaram atenção para mudanças ocorridas pouco depois da abertura. Em 29 de março, a empresa alterou seu endereço e revogou procurações concedidas a cinco advogados e a um escritório espanhol. Em 7 de abril, passou a indicar sede no Paseo de la Castellana, importante região empresarial de Madri.

Alterar endereço ou revogar procurações não constitui crime por si só. Esses atos são mencionados porque os autores querem saber se a empresa possui operação real, funcionários, clientes, faturamento e estrutura compatíveis com a atividade informada aos órgãos espanhóis.

A residência de Lulinha também foi questionada

Oswaldo Eustáquio afirma que a iniciativa não se limita à empresa. Os denunciantes querem que seja examinada a legalidade da autorização de residência de Lulinha, vinculada ao seu Número de Identificação de Estrangeiro, o NIE. A tese é que, caso a atividade empresarial declarada não exista ou tenha sido apresentada apenas formalmente, a base migratória também poderia ser revista.

Isso não significa que Lulinha perderá imediatamente o direito de permanecer na Espanha. Para haver consequência migratória, as autoridades precisam primeiro admitir a notícia, realizar diligências e constatar eventual falsidade, fraude ou descumprimento dos requisitos da autorização concedida. O simples protocolo não suspende residência, não bloqueia bens e não determina deportação.

Por que as investigações brasileiras foram citadas

Lulinha é mencionado em três inquéritos no Supremo Tribunal Federal relacionados a suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e tráfico de influência. Relatórios da Polícia Federal apontaram uma possível comunhão de interesses econômicos com a lobista Roberta Luchsinger em tentativas de negócios com o Ministério da Saúde, incluindo produtos à base de cannabis e testes para doenças transmitidas por mosquitos.

A PF também apura pagamentos de passagens, despesas pessoais e movimentações em dinheiro atribuídas à lobista. Algumas negociações investigadas não resultaram em contrato com o governo. A defesa de Lulinha nega irregularidades, sustenta que ele é financeiramente independente e afirma que vazamentos das investigações vêm sendo usados com finalidade política.

Os autores da comunicação querem que a Fiscalía verifique se algum recurso ligado aos fatos brasileiros chegou à estrutura espanhola. Para transformar essa suspeita em prova, será necessário demonstrar fluxo financeiro, origem dos valores, beneficiário, conhecimento e finalidade — não basta a relação familiar de Lulinha com o presidente nem a existência dos inquéritos no Brasil.

O que pode acontecer daqui para frente

A Fiscalía pode arquivar a comunicação se considerar ausentes os elementos mínimos; solicitar documentos a registros empresariais, bancos e órgãos migratórios; instaurar diligências preliminares; ou encaminhar o caso ao juízo competente se encontrar indícios de crime. Havendo conexão com apurações brasileiras, também pode recorrer à cooperação jurídica internacional para obter relatórios, depoimentos e dados financeiros.

Portanto, há um fato juridicamente relevante: uma denúncia documentada foi protocolada perante a autoridade anticorrupção espanhola. Mas ainda não há confirmação pública de que a Fiscalía tenha aberto investigação formal, denunciado Lulinha perante um tribunal ou reconhecido qualquer irregularidade na Synapta.

A importância política do movimento está em submeter a vida empresarial e migratória do filho do presidente brasileiro a uma jurisdição estrangeira, menos exposta à disputa brasileira sobre foro e competência. O próximo marco será uma manifestação oficial da Fiscalía: somente ela permitirá saber se a iniciativa avançará para diligências efetivas ou será tratada como comunicação sem base probatória suficiente.