No mesmo dia em que uma porta se abriu para “Dark Horse”, outra frente de investigação avançou sobre as organizações ligadas ao filme de Jair Bolsonaro. Nesta segunda-feira (24), a Ancine concedeu o Registro de Obra Estrangeira solicitado pela Europa Filmes para o longa, que será distribuído no Brasil como “O Azarão”. Trata-se de uma etapa técnica necessária à circulação comercial da obra — não de aprovação de seu financiamento — e ainda não há data de estreia. Horas depois, Flávio Dino autorizou a Polícia Federal a acessar provas apreendidas pela Polícia Civil de São Paulo contra Karina Ferreira da Gama, responsável pela Go Up Entertainment.

A decisão permite cruzar documentos, dados digitais e informações da Operação Wi-Fi Livre com o inquérito federal que apura possível desvio de finalidade de emendas destinadas ao Instituto Conhecer Brasil, entidade ligada à produtora. A investigação paulista examina suspeitas em um contrato de R$ 108,8 milhões com a Prefeitura de São Paulo; a frente sob Dino se concentra em R$ 2 milhões destinados pelo deputado Mário Frias. Instituto Conhecer Brasil, Academia Nacional de Cultura e Go Up aparecem no mesmo universo empresarial, mas a autorização de compartilhamento não significa que o desvio para o filme já esteja provado.

Para Flávio Bolsonaro, o risco imediato é político e probatório, não uma condenação automática. Ele admitiu ter solicitado recursos privados a Daniel Vorcaro para a produção, negou qualquer vantagem indevida e essa frente é examinada em outro procedimento, sob André Mendonça. Se as novas provas apontarem participação consciente em desvio de dinheiro público, ocultação de valores ou fraude, poderão sustentar novas investigações e eventual denúncia; sem esse elo, a decisão de Dino não responsabiliza o candidato. Ainda assim, o timing merece crítica: uma medida de enorme impacto eleitoral foi divulgada exatamente quando o filme avançava na Ancine, reforçando a obrigação de máxima transparência, competência bem delimitada e cautela do STF para que investigação legítima não pareça intervenção na disputa presidencial.