O senador Carlos Viana (PSD-MG), que presidiu a CPMI do INSS, anunciou que pediu ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, providências para que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, seja ouvido com urgência nas investigações que apuram possível tráfico de influência junto ao governo federal.

A cobrança ocorre depois da divulgação de mensagens e documentos extraídos de investigações da Polícia Federal. Parte do material envolve a empresária Roberta Luchsinger, amiga do filho do presidente, que teria se apresentado como representante de “Fábio” em tratativas relacionadas a medicamentos à base de canabidiol e contatos com integrantes do governo.

“Não importa o sobrenome. Não importa de quem é filho. A lei tem que valer para todos”, afirmou Viana ao defender que os esclarecimentos sejam prestados sem privilégios. Para o senador, as informações divulgadas reforçam pontos levantados durante os trabalhos da comissão parlamentar.

CPMI acabou, mas as provas não desapareceram

Há uma distinção jurídica importante. Viana não preside atualmente uma comissão em funcionamento com poderes para convocar Lulinha. A CPMI do INSS já encerrou seus trabalhos. O pedido anunciado agora é dirigido a André Mendonça no âmbito das investigações conduzidas sob supervisão do STF.

O senador também pede que as provas reunidas sejam preservadas e analisadas. Documentos, depoimentos e relatórios produzidos por uma comissão parlamentar podem ser encaminhados ao Ministério Público, à Polícia Federal e a outros órgãos competentes, mesmo depois do encerramento do colegiado.

A CPMI tentou avançar sobre Lulinha durante seus trabalhos. A quebra de sigilos bancário e fiscal chegou a ser aprovada, mas foi suspensa por decisão do ministro Flávio Dino, que apontou problemas na forma de votação dos requerimentos. A comissão também enfrentou derrotas políticas e judiciais ao tentar ouvir personagens centrais da investigação.

O que dizem as mensagens

Segundo reportagens baseadas em informações da investigação, Roberta Luchsinger teria usado expressões como “eu sou o Fábio” ao tratar de assuntos envolvendo interlocutores do governo. A Polícia Federal apura se ela atuava em nome de Lulinha e se houve tentativa de abrir portas em órgãos públicos para interesses privados.

Uma das frentes envolve a empresa World Cannabis e um projeto de comercialização de medicamentos à base de canabidiol. Outra linha investiga possível atuação junto à Dataprev. Existem ainda apurações sobre vazamento de dados sigilosos e eventuais contatos com autoridades.

Esses elementos permanecem sob investigação. Mensagens atribuídas a terceiros não provam, por si só, que Lulinha autorizou a interlocução, recebeu vantagem ou praticou tráfico de influência. Será necessário confrontar conversas, registros financeiros, agendas, documentos e depoimentos.

Por que o depoimento pode ser decisivo

Ouvir Lulinha permitiria esclarecer se ele conhecia as tratativas, se autorizou Roberta a usar seu nome, se participou de reuniões e se recebeu qualquer benefício. Também poderia explicar a natureza de suas relações com empresários citados nas apurações.

Caso seja ouvido como investigado, ele terá direito ao silêncio e não poderá ser obrigado a produzir prova contra si. Se prestar depoimento como testemunha, deverá dizer a verdade, mas poderá permanecer calado diante de perguntas que possam incriminá-lo. A definição da condição jurídica precisa ser feita antes da oitiva.

O depoimento não substitui prova documental. Declarações deverão ser comparadas com dados bancários, telemáticos e fiscais obtidos de maneira legal e submetidos ao contraditório.

Disputa sobre o foro

A Procuradoria-Geral da República pediu que parte do caso seja remetida à primeira instância sob o argumento de que Lulinha não possui foro privilegiado. André Mendonça, relator de uma das investigações, avalia manter o inquérito no Supremo porque os fatos podem ter conexão com autoridades que possuem prerrogativa de foro.

A decisão é relevante. Se Mendonça entender que não existe envolvimento concreto de autoridade com foro, o caso poderá ser desmembrado e encaminhado a um juiz federal. Se identificar conexão probatória suficiente, poderá manter sob sua supervisão as diligências necessárias para evitar decisões contraditórias ou perda de provas.

A Polícia Federal não decide sozinha onde o processo tramitará. A PGR pode emitir parecer e requerer a remessa, mas a decisão inicial cabe ao relator. Eventual recurso poderá levar a controvérsia ao órgão colegiado competente do STF.

Defesa denuncia politização

A defesa de Lulinha nega qualquer relação com as fraudes do INSS e afirma que as informações divulgadas são ilações, vazamentos seletivos e tentativas de interferir no processo eleitoral. Os advogados sustentam que relações pessoais ou profissionais não podem ser transformadas automaticamente em crime.

Roberta Luchsinger também contesta a interpretação dada às mensagens e rejeita a criminalização de suas relações. O presidente Lula declarou que o filho não deve receber privilégios e que terá de prestar esclarecimentos caso existam elementos contra ele.

Até o momento, Lulinha não foi condenado nesses casos. Investigação não equivale a culpa, e qualquer acusação formal dependerá da análise do Ministério Público e do direito de defesa.

O peso político em plena eleição

O caso alcança o centro da campanha presidencial de 2026. Para a oposição, as mensagens podem comprometer o discurso ético de Lula e reforçar a suspeita de que pessoas próximas ao poder utilizavam o nome do filho do presidente para obter acesso ao governo.

Para a defesa e aliados do Planalto, a divulgação fragmentada de material sigiloso busca produzir condenação pública antes de uma conclusão técnica. O risco de exploração eleitoral exige que Polícia Federal, PGR e STF acelerem a apuração sem abandonar o devido processo legal.

O pedido de Carlos Viana coloca André Mendonça diante de uma escolha institucional: avançar rapidamente nas oitivas e perícias ou explicar por que determinados depoimentos ainda não são necessários. Quanto maior a demora, maior será a disputa de narrativas.

A resposta mais segura não virá de discursos partidários, mas do confronto transparente entre mensagens, dinheiro, agendas e testemunhos. Se o nome de Lulinha foi usado sem autorização, isso precisa ser demonstrado. Se houve atuação efetiva perante o governo, o país também precisa saber quem participou, quais interesses estavam em jogo e se alguma vantagem foi oferecida ou recebida.