A cordialidade de uma ligação de 1 hora e 20 minutos não apaga os movimentos feitos longe dos telefones. Em 4 de agosto, Lula recebeu fora da agenda oficial Nikolai Patrushev, um dos homens mais próximos de Vladimir Putin. Patrushev trabalhou na KGB soviética, comandou o FSB — sucessor interno da agência — entre 1999 e 2008, liderou por 16 anos o Conselho de Segurança russo e está sob sanções americanas desde 2018. Depois de passar pelo Planalto, ele se reuniu com Celso Amorim, José Múcio e o comando da Marinha, visitou instalações navais estratégicas e apresentou propostas de cooperação em tecnologia nuclear, pequenas usinas e aplicações marítimas.

Dias depois, José Dirceu declarou à agência estatal russa TASS que o Brasil não abrirá mão de acordos nucleares com Moscou. A frase tem peso político por vir de um antigo chefe da Casa Civil e dirigente histórico do PT, mas não é uma decisão oficial: Dirceu não ocupa cargo no atual governo. Também é necessário separar energia nuclear pacífica de armamento. Brasil e Rússia já discutem radioisótopos médicos, geração de energia, reatores de pequeno porte e tecnologia naval sob compromissos de não proliferação. Ainda assim, aprofundar projetos estratégicos com Moscou no momento em que Washington amplia sanções contra o núcleo de Putin eleva riscos de bloqueios financeiros, restrições tecnológicas e dificuldades para fornecedores sempre que houver pessoas, empresas, componentes ou pagamentos submetidos à jurisdição americana.

É aqui que a conversa amistosa de Lula com Trump perde parte de seu brilho. Brasil e Estados Unidos já enfrentam tarifas que chegam a 37,5% em determinados produtos, disputa na OMC, atritos com Marco Rubio e queda de 13% nas exportações brasileiras ao mercado americano no primeiro semestre. Receber discretamente um dirigente russo sancionado e, logo depois, assistir a um quadro histórico do PT defender a parceria nuclear dentro da máquina de comunicação do Kremlin transmite a Washington um sinal muito diferente daquele da cordialidade presidencial. Isso não prova que Trump tenha decidido punir o Brasil por causa da Rússia, nem torna os acordos automaticamente ilegais. Mas demonstra que o presidente americano sabe que negocia com um governo que fala em conciliação com os Estados Unidos enquanto mantém abertas portas estratégicas para Putin — e diplomacia cordial jamais significou confiança.