A Polícia Federal identificou que a Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobranças e Tecnologia Ltda., empresa ligada a Victor Henrique de Oliveira Shimada — sancionado pelos Estados Unidos por suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC) —, era utilizada como uma espécie de “casa de câmbio invisível” para lojistas chineses no Brasil.

De acordo com documentos da investigação obtidos pela imprensa, o esquema envolvia o chamado “cripto-cabo”, mecanismo que permitia a transferência rápida de valores para o exterior por meio de criptomoedas (principalmente USDT), sem passar pelo sistema financeiro formal.

ESQUEMA ATENDIA “DÓLAR CHINA” EM ESCALA INDUSTRIAL

O foco principal eram comerciantes chineses que atuam no varejo de eletrônicos e acessórios (como iPhones e capinhas de celular) e precisavam enviar grandes quantias para fora do país. Os lojistas entregavam reais à rede e recebiam o equivalente em stablecoins, com liquidação em Hong Kong e Taiwan em cerca de 10 minutos.

A perícia da PF identificou, em apenas 198 dias, a remessa de 152 milhões de USDT (mais de R$ 872 milhões) pela principal carteira digital associada à rede. Os investigadores ainda trabalham para determinar quanto desse volume corresponde especificamente aos comerciantes chineses.

 CONTEXTO DA INVESTIGAÇÃO E SANÇÕES AMERICANAS

Victor Shimada e sua associada Stella Stefanie foram sancionados pelo Departamento do Tesouro dos EUA em 1º de julho de 2026. Os americanos o descrevem como “elo-chave” entre membros do PCC na Flórida e traficantes internacionais, acusando-o de lavar dezenas de milhões de dólares em lucros do narcotráfico via criptomoedas.

No Brasil, a Operação Exchange da PF mira um esquema de lavagem estimado em mais de R$ 10 bilhões. Shimada está foragido, enquanto outras pessoas próximas foram presas. A Victory Trading aparece tanto na investigação brasileira quanto nas sanções americanas como uma das principais empresas usadas para movimentar e ocultar recursos de origem ilícita.

A existência de um canal paralelo de remessas para a comunidade chinesa no Brasil reforça o alerta sobre a vulnerabilidade do país a fluxos financeiros informais e o uso de criptoativos por redes criminosas transnacionais.