Trump elogia Lula — e o afago pode ser o sinal mais perigoso
Entre ataques, tarifas e elogios, relação expõe método imprevisível de negociação do presidente americano
Quando Donald Trump elogia um adversário, o perigo necessariamente passou — ou a pressão apenas mudou de tom? A relação com Lula virou uma montanha-russa: Trump atacou o governo brasileiro, associou medidas contra o país à defesa de Jair Bolsonaro, depois falou em "excelente química" com o petista, voltou a elevar a tensão com tarifas e, agora, participou de uma conversa de 1h20 descrita como cordial. Lula também oscilou: denunciou interferência, prometeu reagir e, logo depois, destacou a boa interlocução pessoal. O problema é que, apesar do novo afago, as sobretaxas continuam de pé e não há compromisso público de revogação antes da eleição.
É daí que nasce uma leitura recorrente sobre o método Trump: a cordialidade pode ser instrumento de coerção, não sinal de rendição. Ele já chamou Xi Jinping de amigo enquanto travava uma guerra comercial com a China; trocou declarações calorosas e encontros históricos com Kim Jong-un sem retirar as sanções contra a Coreia do Norte; e manteve elogios pessoais a Vladimir Putin mesmo quando Washington preservava instrumentos de pressão sobre Moscou. O padrão não prova que exista uma ofensiva secreta contra Lula, mas mostra que Trump costuma separar o tratamento pessoal da disputa concreta — afaga o interlocutor enquanto conserva tarifas, sanções e ameaças como cartas de negociação.
Para Lula, portanto, o elogio pode ser mais arriscado do que parece: cria sensação de distensão, oferece uma fotografia política conveniente e pode reduzir a vigilância justamente quando Washington ainda mantém poder econômico e diplomático sobre a mesa. O telefonema reabriu o diálogo e levou as equipes dos dois países a preparar nova rodada de conversas, mas não entregou uma vitória brasileira. Se o Planalto confundir simpatia com garantia, poderá descobrir tarde demais que, no vocabulário de Trump, química é apenas o começo da negociação — nunca o fim da pressão.

