QUANDO BIDEN MANDOU O CONSELHEIRO DAR UM RECADO A BOLSONARO SOBRE A ELEIÇÃO, NINGUÉM FALOU EM INTERFERÊNCIA
Em vídeo, o comentarista Daniel Lopez lembra que Jake Sullivan e o secretário de Defesa vieram ao Brasil tratar das eleições no governo Biden e compara com o visto negado aos enviados de Trump
Um vídeo publicado na quinta-feira, 1º de outubro, pelo comentarista Daniel Lopez, do perfil @daniell.llopez, com a legenda “EUA já fizeram isso antes nas eleições”, devolve a quem hoje acusa o governo americano de interferir no Brasil uma pergunta incômoda sobre o governo de Joe Biden. Gravado em estúdio, o comentário começa com a constatação de que “hoje está todo mundo rasgando as vestes, indignado”, dizendo que “o governo americano está interferindo no Brasil”, e logo lembra que o conselheiro de Segurança Nacional de Biden veio ao país para, nas palavras de Lopez, “dar uma peitada no ex-presidente Bolsonaro”, sem que ninguém reclamasse.
A frase central do vídeo resume o argumento, porque Lopez afirma que “naquela época ninguém falou ali que era uma tentativa de influenciar as disputas” e que “na época todo mundo achou normal”. No vídeo ele situa a visita em 2022, mas o encontro aconteceu na quinta-feira, 5 de agosto de 2021, quando Jake Sullivan foi recebido por Bolsonaro no Palácio do Planalto, e a Folha de S.Paulo e a Reuters relataram, com base em fontes do governo americano, que ele levou ao presidente a mensagem de que era importante não minar a confiança no sistema eleitoral brasileiro, num momento em que Bolsonaro questionava as urnas eletrônicas. Lopez acrescenta que Biden “não mandou só o conselheiro de segurança nacional” e que o secretário de Defesa também veio ao Brasil “para falar sobre isso”, o que corresponde à passagem de Lloyd Austin por Brasília, onde, na terça-feira, 26 de julho de 2022, durante a Conferência de Ministros de Defesa das Américas, ele defendeu militares “sob firme controle civil”, segundo o Brasil de Fato.
O contraste que o comentarista desenha é com o tratamento dado agora aos enviados de Donald Trump, já que, segundo ele, “os americanos tentaram vir aqui para monitorar as disputas no Brasil” e o governo brasileiro “rejeitou o visto para esses caras entrarem no Brasil”. O episódio a que ele se refere é a recusa, pelo Itamaraty, na sexta-feira, 24 de julho de 2026, dos vistos de Riley Barnes e Samuel Samson, dois funcionários do Departamento de Estado que tinham viagem marcada a Brasília, decisão que o governo Lula justificou como reação a uma tentativa de interferência, como noticiou o Estadão, enquanto Washington classificou a missão como “visita de rotina” e chamou de “mentira sem fundamento” a acusação de que ela buscava desacreditar o sistema eleitoral, segundo o g1.
Às vésperas do primeiro turno de domingo, 4 de outubro, o vídeo de pouco mais de um minuto não traz documento novo, mas recoloca lado a lado duas reações diante de Washington, já que a visita de um assessor de Biden para tratar da eleição com Bolsonaro foi recebida como diplomacia normal, ao passo que a tentativa de enviados de Trump de discutir o mesmo tema terminou com o visto negado. É essa diferença de régua, e não um juízo sobre qual das visitas foi legítima, que Lopez cobra de quem hoje fala em interferência americana.

