Vladimir Putin enviou nesta segunda (7) um telegrama a Luiz Inácio Lula da Silva pelo Dia da Independência. O Kremlin e a embaixada russa no Brasil publicaram o texto. Putin trata Lula como “caro amigo” e escreve que as relações “estão se desenvolvendo com sucesso no espírito da parceria estratégica”. Cita cooperação “nas mais diversas áreas” e coordenação na ONU, no Brics, no G20 e em outras mesas. Promete “trabalho conjunto construtivo” para ampliar os laços. Fecha: isso atende aos “povos amigos” e está “em consonância com o objetivo de construir uma nova ordem mundial multipolar e mais justa”.

Não é recado avulso. Em 4 de agosto os dois falaram cerca de uma hora, depois que Volodymyr Zelensky pediu interlocução brasileira sobre a guerra. Discutiram energia, ciência, setor naval e as comissões bilaterais. Lula reiterou apoio a Michelle Bachelet para a secretaria-geral da ONU. A Rússia segue em guerra na Ucrânia. O Brasil não aderiu às sanções ocidentais e vota com o Brics na narrativa de multipolaridade. O telegrama de festa nacional repetiu o vocabulário que Moscou usa contra a ordem centrada em Washington.

Felicitar o 7 de Setembro é rotina diplomática. Encaixar nisso a “nova ordem mundial” é escolha de Moscou — e silêncio de Brasília, até aqui, sobre o teor. O Planalto não divulgou resposta pública ao trecho multipolar. Cabe a Lula dizer se a frase é só cortesia de feriado ou endosso à leitura russa da guerra e das sanções. Cabe ao Itamaraty registrar o telegrama e o preço de aparecer como “povo amigo” de quem ainda bombardeia a Ucrânia.