PARAGUAI ENTREGA NOTA DE REPÚDIO AO EMBAIXADOR BRASILEIRO POR FALAS DE LULA SOBRE A GUERRA DA TRÍPLICE ALIANÇA
Governo de Santiago Peña convocou José Antonio Marcondes de Carvalho nesta sexta-feira (31) para receber documento oficial de protesto. Declarações do presidente brasileiro, feitas em Jacareí ao defender mais gastos com defesa, geraram rejeição unânime no Congresso e no Executivo paraguaio.
O governo do Paraguai convocou o embaixador brasileiro em Assunção, José Antonio Marcondes de Carvalho, para entregar nesta sexta-feira (31) uma nota oficial de repúdio às declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870). O anúncio foi feito na quinta-feira (30) pelo chanceler Rubén Ramírez Lezcano, que afirmou que a dignidade do Paraguai “não se negocia” e que o país defenderá seus interesses “em todos os âmbitos”. A reunião com o diplomata brasileiro ocorre na companhia do vice-presidente Pedro Alliana.
LULA CITA INVASÃO PARAGUAIA PARA JUSTIFICAR GASTOS COM DEFESA
Na sexta-feira (24 de julho), durante visita à fábrica da Avibras Aeroespacial, em Jacareí (SP), Lula defendeu o aumento de investimentos nas Forças Armadas alegando a existência de “loucos pelo mundo querendo fazer guerra”. Em seguida, citou o conflito do século 19: “Nós gostamos da paz, mas não podemos esquecer que, certa vez, o Paraguai decidiu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá e, ao mesmo tempo, invadiu o Uruguai e a Argentina. E essa guerra, que parecia que não ia dar em nada, durou cinco anos.” O presidente afirmou ainda que o conflito teria consumido o equivalente a cerca de cinco orçamentos do Brasil da época.
As falas, registradas em vídeo e amplamente divulgadas, provocaram reação imediata em Assunção.
CONGRESSO PARAGUAIO REPUDIA EM DECLARAÇÕES OFICIAIS
Na quarta-feira (29), o Senado e a Câmara dos Deputados do Paraguai aprovaram notas de repúdio. O documento da Câmara afirma que as declarações de Lula “distorcem e minimizam a dimensão histórica da Guerra da Tríplice Aliança”, desconhecem “a complexidade dos antecedentes do conflito” e o “profundo sofrimento humano suportado pelo povo paraguaio”. Parlamentares pediram ainda a restituição de troféus de guerra, como o canhão El Cristiano, levado pelo Brasil.
O presidente da Câmara, Raúl Latorre, classificou a fala como “leviandade” sobre “a maior tragédia da nossa história, o maior genocídio do nosso continente”. O presidente do Congresso, Basilio Núñez, reforçou que o episódio faz parte da memória e da identidade nacional paraguaia.
GOVERNO DE PEÑA AGE NO MAIS ALTO NÍVEL
O chanceler Rubén Ramírez Lezcano informou que conversou pessoalmente com o ministro brasileiro Mauro Vieira em Lima e que os presidentes Santiago Peña e Lula trataram do assunto por telefone. Segundo ele, o Brasil continua sendo um “aliado estratégico”, com agenda ampla em comércio, integração e segurança, mas a dignidade nacional não é negociável.
A convocação do embaixador é o gesto diplomático formal de protesto. A entrega da nota oficial estava marcada para o meio-dia desta sexta-feira (31) em Assunção.
GUERRA QUE DEVASTOU O PARAGUAI SEGUE COMO TRAUMA NACIONAL
A Guerra da Tríplice Aliança, conhecida no Brasil como Guerra do Paraguai, foi o conflito mais sangrento da América do Sul. Estimativas apontam perda de 50% a 70% da população paraguaia (com porcentagens ainda maiores entre homens adultos), destruição da infraestrutura e ocupação militar prolongada. No Paraguai, a narrativa oficial e popular enfatiza a complexidade das causas — incluindo a intervenção brasileira no Uruguai — e rejeita a simplificação que atribui a Assunção o papel exclusivo de agressor.
REAÇÃO EXPÕE FRAGILIDADE DIPLOMÁTICA DO GOVERNO LULA
A crise surgiu de uma declaração improvisada do presidente brasileiro em evento de defesa. Enquanto o governo Lula enfrenta tensões com outros países da região e tenta projetar liderança internacional, a fala reabriu uma ferida histórica sensível e gerou constrangimento diplomático com um vizinho estratégico, sócio na Itaipu e importante parceiro comercial. O episódio reforça o padrão de declarações do petista que geram reações externas desnecessárias, exigindo depois gestão de danos no mais alto nível.

