O mesmo Palácio da Alvorada que virou problema eleitoral para Jair Bolsonaro agora coloca Lula diante de uma pergunta incômoda. Em 30 de julho, três dias antes da convenção que oficializou sua candidatura, o presidente recebeu no local o podcast Inteligência Ltda. e fez declarações explicitamente eleitorais, afirmando que concorreria para impedir a volta da direita ao poder. Já a entrevista concedida a Mariana Godoy, da Record, foi gravada no Alvorada e exibida em 23 de agosto, durante a campanha, com propostas para um eventual novo mandato e críticas a adversários.

A Lei das Eleições proíbe o uso de bens públicos em benefício de candidaturas, mas admite reuniões de campanha em residências oficiais quando não tenham caráter de ato público. Em 2022, o TSE proibiu Bolsonaro de transmitir lives eleitorais do Alvorada; no julgamento posterior, reconheceu conduta vedada em uma transmissão com pedidos de voto, porém afastou o abuso de poder e não decretou inelegibilidade naquele processo. A própria Corte também decidiu que entrevistas coletivas concedidas por Bolsonaro em palácios não configuraram abuso. Ou seja: Bolsonaro não ficou inelegível por aquela live, mas o precedente estabeleceu que transformar a residência oficial em estúdio de propaganda pode ser ilegal.

Para Lula, o podcast produz risco maior do que a entrevista jornalística. O conteúdo do Inteligência Ltda. tinha discurso de candidatura e ampla transmissão pública, embora tenha ocorrido antes do início oficial da campanha; já a conversa com a Record foi uma entrevista conduzida por veículo de imprensa, formato normalmente protegido pela liberdade jornalística, desde que não exista produção custeada pelo Estado, tratamento privilegiado ou peça coordenada pela campanha. Uma ação poderia pedir multa, retirada do conteúdo, cassação ou inelegibilidade, mas esta última exigiria prova de abuso do poder político com gravidade suficiente para comprometer a igualdade da eleição. Se o TSE aplicar a mesma régua usada contra Bolsonaro, deverá examinar estrutura, custeio, alcance, conteúdo e repetição — não apenas o endereço onde Lula se sentou.