Janja Lula da Silva, primeira-dama, usou seu palanque no Palácio do Planalto para fazer algo que a direita vem denunciando há meses: pressionar a grande imprensa a censurar discursos que desagrada ao governo. Desta vez, o alvo foi o ator Juliano Cazarré, que participou de debate na GloboNews e cometeu imprecisão ao afirmar que mulheres matam mais homens do que o inverso. A resposta de Janja não foi educada, nem proporcional. Foi um ataque público coordenado.

O DISCURSO QUE JANJA NÃO QUER OUVIR

Cazarré participou do programa "GloboNews Debate" e defendeu que o Brasil é violento contra todos, inclusive contra homens. Citou números (sem fonte) afirmando que 2.500 homens foram mortos por mulheres, contra 1.500 feminicídios. Os números estão errados. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que 97,3% dos feminicídios (morte de mulher por ser mulher) foram cometidos por homens, totalizando 1.568 casos em 2025. Cazarré confundiu homicídios em geral com feminicídio — categorias diferentes. O especialista Ismael dos Anjos corrigiu na hora. A psicanalista Vera Iaconelli também questionou o discurso. Perfeito. Debate aconteceu, argumentos foram trocados, audiência decidiu. Esse é o papel da jornalismo — apresentar visões, questionar, deixar o povo decidir.

A CENSURA DISFARÇADA DE FEMINISMO

Mas Janja não aceitou isso. Dias depois, em cerimônia sobre "100 dias do Pacto Brasil Contra o Feminicídio", ela desceu do palanço e atacou publicamente Cazarré. Disse que ele "disfarça machismo em opinião", que disseminou "fake news em rede nacional", que a GloboNews cometeu "desserviço" ao não desmentir. A mensagem implícita era cristalina: TV Globo, censurem esse cara. Não deixem ele falar coisas que desagrada o governo. A primeira-dama de um país democrático não deveria estar fazendo campanha para silenciar cidadãos. Mas está. E a direita está percebendo que isso é apenas uma versão mais glamourosa do que Moraes faz no STF — usar poder institucional para perseguir opositores.

A DIFERENÇA ENTRE CRITICAR E CENSURAR

Janja poderia ter simplesmente dito: "Os dados de Cazarré estão errados. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 97,3% dos feminicídios são cometidos por homens. A realidade é essa." Fim. Educado, objetivo, factual. Mas não. Ela usou uma cerimônia oficial para chamar o ator de desinformador e cobrar da TV uma atitude que ela mesma não deveria estar pedindo. Porque pedir censura é censura — ainda que vinda de alguém com gravata. O problema é que Janja sabe algo que a esquerda sabe bem: a palavra é poderosa. Se ela — primeira-dama, com toda a máquina governamental atrás — disser publicamente que Cazarré está espalhando mentiras e que a Globo cometeu erro em não desmentir, a pressão política sobre a emissora cresce. E cresce mesmo. Jornalistas começam a repensar se devem dar espaço a certos discursos. TV Globo sente a pressão vindo do Planalto. É censura operacional — não pela lei, mas pela intimidação.

O PADRÃO QUE NÃO PODE SER IGNORADO

Essa não é a primeira vez. Há meses o governo tenta criminalizar o movimento "red pill" (homens que se "despertaram" para críticas ao feminismo excessivo). Criou o "Pacto Contra o Feminicídio" que, embora tenha dados importantes sobre violência contra mulheres, está sendo usado para justificar perseguição a qualquer homem que questione a narrativa oficial sobre gênero. Agora Janja sai falando sobre "algoritmo que monetiza ódio às mulheres" e o que quer mesmo é dizer: "redes sociais, removam conteúdo de homens que criticam feminismo". É expansão da censura. Começou com Moraes, agora brilha e aparece com Janja em discurso de primeira-dama. A direita reconhece o padrão porque vive sob ele há anos.

OS DADOS REAIS QUE NINGUÉM QUER DISCUTIR

Sim, os números de Cazarré foram imprecisos. Mas a verdade é mais nuançada do que Janja quer admitir. Homens morrem muito mais do que mulheres no Brasil em geral — representam 91,1% de todas as vítimas de homicídio em 2024. A diferença é que a maioria dessas mortes ocorre em conflitos urbanos, tráfico, confrontos com polícia — não em crime doméstico. Já mulheres: 66,3% morrem em casa, assassinadas por parceiros e ex-parceiros. São contextos diferentes. Cazarré errou em comparar diretamente os números. Mas ao invés de discutir isso publicamente, Janja preferiu caracterizá-lo como mentiroso. Porque não quer debate — quer hegemonia da narrativa. A direita vê isso e questiona: por que uma primeira-dama precisa pessoalmente descer do palanço para atacar um ator? Porque percebeu que a narrativa dela não aguenta debate igualitário.

LIBERDADE DE EXPRESSÃO ESTÁ EM RISCO?

Para o leitor bolsonarista, isso é familiar. É exatamente o que vem acontecendo há anos com Alexandre de Moraes, com bloqueios na internet, com prisões por opinião, com censura institucionalizada. Janja não bloqueia redes. Mas faz algo mais sutil — usa prestígio e poder para constranger quem discorda. TV Globo ouve. Jornalistas tremem. Redes sociais agem. Resultado: silêncio. Janja chama isso de combate à desinformação. A direita chama de censura. E tem razão em questionar por que uma primeira-dama precisa fazer campanha pessoal contra um ator.